"Se o setor público está quebrado, vamos trazer o setor privado para investir"
Blogs e Colunas | Joedson Telles 10/03/2019 08:16

O empresário Milton Andrade, que assumiu a coordenação do Fórum Empresarial de Sergipe, quer sentar à mesa com o governador Belivaldo Chagas (PSD) para encontrar uma saída para a crise econômica que Sergipe se encontra. Segundo ele, se o Estado não tem verbas, a solução está no dinheiro oriundo do setor privado. "Se o setor público está quebrado, vamos trazer o setor privado para investir, parceria que pode gerar dezenas de milhares de empregos - e o efeito cascata disso é o crescimento econômico. Voltar a arrecadar o suficiente para pagar aos servidores em dia, os fornecedores, acabar com o caos financeiro que hoje existe e é real", diz nesta entrevista. "Dialogando, o setor produtivo e o setor público, temos que encontrar saídas viáveis porque não interessa a ninguém o caos". A entrevista:

O senhor assumiu, recentemente, o Fórum Empresarial de Sergipe, destacando a necessidade de haver diálogo com o setor público. Não existe esta relação?

Há uma carência de diálogo e tem faltado pauta do setor produtivo. Nos últimos anos, nós reagimos ao aumento de impostos, mas não agimos com pautas propositivas, para que não fosse necessário o aumento de impostos. Está na hora de apontarmos soluções. Apontarmos caminhos para que o Governo do Estado possa desenvolver atividades, que, ou não são desenvolvidas, ou são de forma muito precária, e fortalecer a parceria público/privada que é essencial. Se o Estado não tem dinheiro, só tem uma forma de investir: usar o dinheiro do setor privado. Se o setor público está quebrado, vamos trazer o setor privado para investir, parceria que pode gerar dezenas de milhares de empregos - e o efeito cascata disso é o crescimento econômico. Voltar a arrecadar o suficiente para pagar aos servidores em dia, os fornecedores, acabar com o caos financeiro que hoje existe e é real. Não adianta falar com populismo nem hipocrisia e dizer que não tem dinheiro. É insuficiente para pagar as contas. Dialogando, o setor produtivo e o setor público, temos que encontrar saídas viáveis porque não interessa a ninguém o caos.

Está na pauta do Fórum Empresarial de Sergipe, então, sentar à mesa com o governador?

Sem dúvida. Já pedi para marcar uma audiência na data que for conveniente ao governador Belivaldo Chagas, para que possamos nos colocar à disposição, para que possamos superar essa crise, que é a maior crise econômica da história. Desde que Sergipe foi emancipado até hoje, nunca existiu uma crise econômica igual a essa. Tem muito fornecedor no vermelho, por conta de calote do setor público, das prefeituras do interior, do Governo do Estado, e quando você tem um risco de não receber seu preço cresce. Digamos que um produto custa R$ 1,00 para quem paga a vista. Se esse pagamento é feito a prazo, o preço sobe para R$ 1,10. E se for a prazo e para o setor público, que tem histórico de atrasar, vira R$ 1,50. O dinheiro que era para comprar um quantitativo já fica insuficiente. Na mesma medida que falta dinheiro para honrar compromissos mais caros fica para o governo comprar os produtos e serviços no mercado porque a nota de crédito do governo hoje, de A a E, é D - quase E. Com um crédito tão baixo, o risco vai lá pra cima e os produtos ficam mais caros. O bom fornecedor que não consegue trabalhar com inadimplência, que não tem caixa, não entra em licitação do Estado, hoje, porque tem risco de inviabilizar todo negócio. Várias terceirizadas quebraram com milhões dentro do Estado.

E o desemprego?

O desemprego, na verdade, é o grande vilão e causador de toda a crise. Quando o emprego caiu, o número de pessoas consumindo caiu também, e vai gerando mais desemprego. Se eu atendia a 10 mil pessoas, e mil perderam emprego, eu vou ter que enxugar o meu negócio para atender nove mil. Com menos gente trabalhando, temos menos gente consumindo - e vira um círculo vicioso. Num estádio de futebol, quando um torcedor se levanta, todo mundo lá atrás vai se levantar pra poder enxergar o jogo. Está faltando um pra mandar sentar. Um sentando, senta todo mundo. Está na hora de invertermos esse círculo vicioso. Convertermos em círculo virtuoso para melhorar o ambiente para negócios em Sergipe. Temos uma tributação alta, uma infraestrutura precária, mão de obra das piores do Brasil em qualificação e uma legislação que atribui ao empresário obrigações acessórias que nenhum outro estado atribui.Essa receita de fatores é o conjunto certo para dar tudo errado. Sergipe é considerado, hoje, no ranking de liberdade econômica, o pior estado do Brasil para se empreendedor. O Brasil é famoso por ser um país difícil pra negócio, e, nesse país que é hostil para o empreendedorismo, somos o pior estado para se empreender. O pior é que Sergipe está liderando o ranking de violência, pior educação, de desemprego... Enquanto os estados que têm uma legislação mais favorável ao empreendedorismo têm taxas de desemprego menor que a média nacional, e já estão se recuperando da crise, não têm problemas com pagamento de folha de servidor e nem com fornecedor.

Então, o discurso do governador Belivaldo Chagas, que tem alertado para a necessidade de unir forças para ajudar Sergipe, tem coerência com o seu?

Há duas análises aí. Ele está de parabéns por falar a verdade. Segundo ponto é que, como ele está na gestão há muitos anos, acaba criando a crise de credibilidade. Se estava lá dentro e não resolveu agora é que vai resolver? Durante a própria campanha, se criou uma expectativa muito alta. Até a votação expressiva de quase 700 mil votos demonstrou que o sergipano tinha esperança que ele chegou para resolver. Hoje, está vendo que não é bem assim e que as soluções não têm aparecido. Apontar o caminho para resolver as soluções é o segundo passo e esse não vem. É nisso onde eu quero que o Fórum Empresarial entre: que contribua para que o governo dê o segundo passo e apresente as soluções. Nós verificamos a doença. Está faltando dizer qual o remédio. Ou é paciente terminal? Dois milhões e trezentos mil sergipanos não podem estar num estado que é paciente terminal. Dizer a verdade que a crise existe é o primeiro passo. Está faltando o passo seguinte.

O fato de estar no governo, mas não ter a caneta não faz diferença?

Faz com toda certeza. Eu nunca coloquei na conta de Belivaldo nada que fosse antes do período dele ser governador. Ser vice é uma coisa e governador é outra. Uma coisa é pedirem seu palpite e outra é decidir. Eu não acho que ele tenha que ser responsabilizado antes de abril de 2018. Como ele conhecia a situação do Estado, e disse que estava chegando para resolver, se criou a expectativa. O meu ponto é de abril em diante. Ele, já com os números em mão, disse que tinha a solução para o fornecedor, o servidor e para o emprego. Agora o discurso mudou. Diz que é calamidade financeira, que pode voltar a atrasar para mais servidores. Diante dos números de abril pra cá, o que mudou? A arrecadação subiu, o repasse do FPE subiu.

Mas a previdência segue o gargalo...

A gente sabe que a previdência é um problema que deve ser enfrentado. São necessárias de cinco a seis medidas para reduzir o rombo em R$ 350 milhões. Hoje, está em R$ 1, 2 bilhão. Sobram R$ 850 milhões de rombo, mas é melhor do que estava. Temos que combater os corporativismos que existem no serviço público como um todo. Daquilo que for bom para o Estado tem meu apoio, sendo a medida popular ou impopular.

Como foi a experiência de disputar o Governo do Estado?

Foi uma experiência positiva. Eu obtive 35.111 votos, eram nove candidatos. Na eleição de 2006, tinham apenas quatro candidatos e o ex-deputado João Fontes teve 2% dos votos, correspondente a 20 mil votos. Eu, um desconhecido das grandes massas e sem estrutura nenhuma de ter mandato, tive 35 mil votos. Cada eleição tem uma história. Eu julgo que minha mensagem foi compreendida. Entrei no primeiro dia de campanha e saí no último sem desferir uma agressão a ninguém. Eu não compactuo com política de agressão. O eleitor não tem que escolher o menos ruim: tem que escolher o melhor, o mais capacitado para administrar a coisa pública. Depois do debate da TV Sergipe, nossa campanha deu uma crescida. Acredito que o fato de ter sido só um debate televisionado no primeiro turno me prejudicou, porque, no debate, a gente teve um desempenho bom. Nas pesquisas internas, a gente cresceu muito depois do debate. Se tivesse tido mais um ou dois debates televisionados, acho que conseguiríamos um número mais expressivo. Mas, estava diante de uma estreia, num partido pequeno, não tinha candidato a presidente da República, que transfere voto. Quantos votos o senador Alessandro conseguiu transferir para Dr. Emerson? Quantos votos a dobradinha André e Amorim? Eu não tive nada disso. Eu tinha na minha chapa a vereadora Emília Corrêa, que foi fundamental para que ficasse mais conhecido e abrisse as portas para apresentar minhas propostas.

Qual o ponto mais negativo da campanha?

Eu senti, em alguns locais, ainda o vício em pedir algum benefício em troca de voto. Isso me decepcionou muito. Tem muita gente que ainda não consegue entender qual a relação lógica entre o benefício que obtêm numa eleição e a falta de médico durante uma gestão, a falta de professor durante uma gestão, o excesso de violência. Quem comprou o voto não deve mais nada ao eleitor. Tínhamos abordagens de pedido pra reformar casa, de dinheiro, de emprego. Ainda que eu tivesse de onde tirar não tiraria. Não nos submetemos a esse tipo de jogo, mas me entristeceu muito ver que ainda tem uma parcela da população que não está entendendo que o foco dela é o plantio e a gestão do político é a colheita.

Estamos falando de um percentual maior ou menor do eleitorado?

É um percentual menor, mas não é irrisório. Faz diferença.

Como avalia o fato de o ex-deputado federal André Moura ter conseguido mais recursos para Sergipe que qualquer outro político, mas perder a eleição?

De fato, André Moura foi o sergipano mais prestigiado, em Brasília. Eu acho que nem João Alves ministro, na época de Sarney, teve esse prestígio. A gente vê muita coisa que ele trouxe. Eu não entendo muito de gestão política. Não sei se o fato de ter duas lideranças no mesmo local atrapalha porque as duas se acomodam. Não sei se teve corpo mole por parte do time ou se muita gente achou que ganhou e cuidou do segundo voto. É uma coisa que eu prefiro ouvir dos especialistas políticos.

Milton Andrade permanece no mesmo grupo político?

Eu estou num grupo encabeçado por mim, Daniele Garcia e Emília Corrêa, e pretendemos ampliar essa aliança com o pessoal que foi da Rede e hoje está no PPS. Depois de agregar, decidir o nome. Eu acho que a nova política tem que ser feita com meritocracia. O melhor nome no momento vai. Eu não tenho a menor vaidade de ser candidato a prefeito de Aracaju. É um grupo de oposição consciente e não oposição do quanto pior melhor. Oposição construtiva. Dizer qual o problema e a solução porque não tem lugar mais confortável no mundo que o lugar do opositor. Sentar e dizer que está errado. Quando eu faço uma crítica eu tenho o cuidado de dizer o que eu faria no lugar. O que não é justo é criticar e não apontar os caminhos.

Nessa oposição construtiva há espaço para outros políticos que também são oposição ao governo, como os Valadares, André, Amorim?

Não apoiaremos ninguém desse grupo, mas todo apoio é bem vindo. Quem quiser nos apoiar, obrigado, mas não apoiaremos ninguém fora do PPS e da Liga da Renovação. Não negociamos nosso projeto porque temos três pilares: renovação política, combate irrestrito à corrupção e uma gestão eficiente da máquina pública. Quem não tiver enquadrado em um dos três não terá nosso apoio. Ser apoiado é outra coisa. Eu dialogo com todo mundo. Posso ouvir, mas apoio, sem possibilidades. Isso é uma ideia de Milton, Emília e Danielle. Pelo que eu vejo na conduta, imagino que também seja a postura do grupo do delegado Alessandro. Parece que a gente faz questão de ter espaço, mas não é. É por uma questão de coerência. Se quem estava aí fosse bom, eu não me envolvia na política. Estava levando minha vida. A gente se envolveu para dar opção e tirar quem está aí.

Hoje, quem seria o nome para disputar a eleição de prefeito de Aracaju?

Eu assumi um compromisso muito sério, um cargo muito relevante: coordenar o Fórum Empresarial de Sergipe. Durante esse ano de mandato, eu não vou discutir nenhuma possibilidade de candidatura minha. Exigiria um afastamento, e eu acho que pode dar algum oportunismo em qualquer medida que eu apresente. Eu quero colaborar, independente de quem vai colher os louros. Vou ficar no fórum e não vou discutir candidatura minha. Mas desde já, eu apoio Emília e Daniele.

Qual a sua avaliação sobre os primeiros meses do governo do presidente Jair Bolsonaro?

Um pouco de batida de cabeça. Um ministério muito bem escolhido. Mandou um recado muito claro, principalmente para o exterior: com Sérgio Moro ministro, ficou claro que para fazer negócio com o Brasil não precisa mais pagar propina, que era regra antigamente. Com o novo ministro ficou claro que seu talento, sua competência é suficiente para fazer negócio. Paulo Guedes é um grande economista e tem o mesmo viés liberal que eu: a redução do inchaço da máquina pública e tornar a máquina mais eficiente. Um ou outro bate cabeça é ajuste de casa, mas estou satisfeito. Acho que é cedo para avaliar os dois meses, mas estou esperançoso e confiante que ele fará um bom governo.

O discurso de todo governador é que o Estado está quebrado. Sem o Governo Federal como parceiro é possível viabilizar os Estados?

O Governo Federal também está quebrado. Tivemos um rombo de R$170 bilhões em 2018. Se o Governo conseguir aprovar as reformas estruturantes já vai ter sido o melhor da história recente. A da Previdência, Tributária, Eleitoral, essas reformas que podem melhorar o ambiente do Brasil e a performance do gasto público. Sem dúvida nenhuma, a que a União tem uma vantagem em relação aos Estados. Tem uma máquina de imprimir dinheiro - e quando precisa coloca no mercado, se endivida e paga suas contas. O Estado não tem isso. Para pegar emprestado tem que pedir a alguém e alguém tem que concordar em emprestar. Foi o caso da tentativa de antecipação dos royalties, mas a licitação foi deserta, reduziram o valor para ver se alguém se interessa. O risco em Sergipe agora está alto, ninguém quer e prefere dinheiro com risco alto de calote. A União tem essa vantagem de emitir dívidas e saneia suas pendências financeiras aumentando o endividamento. Com o crescimento econômico do Brasil, vamos ter aumento no repasse do FPE e FPM. Os governos precisam fazer com que a despesa pública não cresça. Por ouvir dizer, fiquei sabendo que o governo pretendia algumas reformulações de promoção automática no serviço público. É uma pauta impopular, mas é necessária. Na iniciativa privada, se é promovido por resultado e não por tempo. Você cria uma pauta bomba que a cada três anos aumenta a despesa que não acompanha a receita. A promoção automática é completamente inviável na gestão pública. Eu apoio e tem que aprovar essa pauta. Se mandar para Assembleia, tem meu apoio. Se a gente fizer com que a despesa pública não cresça já está solucionado o problema a longo prazo.

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Joedson Telles
Joedson Telles é um jornalista sergipano formado pela Universidade Federal de Sergipe e especializado em política. Exerceu a função de repórter nos jornais Cinform, Correio de Sergipe e Jornal da Cidade. Fundou e edita, há nove anos, o site Universo
Político e é colunista político do site F5 News.

E-mail: joedsontelles@gmail.com


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