Mais de 70% dos crimes contra LGBTs não são registrados
Combate à LGBTFobia visa mostrar importância da denúncia
Cotidiano| Por Saullo Hipolito* 17/05/2018 12:30 - Atualizado em 17/05/2018 12:46

Vingança, preconceito, ódio e tantos outras motivações podem ser usadas nos casos de LGBTFobia que ocorrem diariamente no mundo. Segundo relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), que coleta estatísticas sobre assassinatos homoafetivos e transgêneros no país há 38 anos, a cada 19 horas um LGBT é morto ou se suicida vítima da LGBTFobia, tornando o Brasil campeão mundial no quesito.

Segundo os dados, a causa das mortes registradas no ano passado segue tendência dos anos anteriores. A arma de fogo (30,8%) predomina como instrumento do homicídio, seguida por armas brancas (25,2%).

Em janeiro, agências internacionais de direitos humanos indicaram que no Brasil há mais mortes de homoafetivos do que nos 13 países do Oriente e África onde há pena de morte contra os LGBTs.

Sergipe não é diferente - casos como o de Denise Melo, 53, morta por uma suposta vingança, ou como da transexual Milane, morta dentro de casa a pauladas, são exemplos recentes de crimes contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

Para o ativista e membro da Rede Nacional de Operadores de Segurança, delegado Mário Leony, é importante dar visibilidade à agenda política que garanta a plena cidadania ao grupo. “A gente fala da importância de sair do armário e dar visibilidade a essa luta e resistência, mas quando o assunto é violência contra LGBTs, paradoxalmente, a realidade que a gente tem é da criminalidade dentro do armário, a qual não está revelada nas estatísticas policiais”.

Em pesquisa realizada pelo também delegado, em 2016, com diversas ONGs que trabalham o tema e vivem com pessoas LGBTs, foi diagnosticado que 74% dos crimes sofridos pelo grupo não são registrados na polícia. O desafio, para Mário Leony, é fazer com que essa minoria se sinta confortável e segura para registrar e denunciar os agressores.

Para isso, é preciso uma interlocução do poder público com campanhas tanto para o público interno, para que os policiais tenham um atendimento humanizado e saibam como abordar alguém, assim como para as comunidades com o objetivo de desconstruir estigmas em relação ao universo LGBT, incentivando a realização da denúncia.

O dia 17 de maio foi denominado como Dia Mundial de Combate à LGBTFobia e tem como objetivo alertar e combater a violência contra lésbicas, gays, transexuais e travestis. Além disso, existe uma luta para emponderar estas pessoas, para que não haja vidas ceifadas por conta de preconceito.

“Esse problema da baixa estima é terrível, temos um dado americano, o qual indica que o jovem LGBT é três vezes mais preponderante à prática de suicídio. Acompanhar ocorrências de suicídio é frustrante para mim que sou ativista, porque não tem como voltar no tempo e falar para essas pessoas que elas não estão sós”, disse o delegado Mário Leony.

Discutir o tema LGBT nas escolas é importante, segundo o ativista. Ele afirma que o índice de “expulsão” de jovens da escola,  por falta de preparo dos profissionais e por bullyings sofridos, é alto.

“Quando a gente analisa o histórico de violência, percebe que os jovens são algozes deles mesmos. A impressão é como se nossos jovens não são educados no Brasil com relação à diversidade, as pessoas que fazem imposição a esse tema nas escolas distorcem o objetivo. Não existe influenciar uma pessoa a ser gay, não há como mudar nossa natureza. Não existe cura, a gente quer que os jovens sejam educados à diversidade”, afirma o delegado.

Atendimento

A Casa Amor, que ainda está em vias de regularização da documentação, foi criada com o objetivo de ser um local de passagem para LGBTs em situação de vulnerabilidade ou em situação de rua, quando são expulsos de casa. A proposta é viabilizar cursos profissionalizantes, ofertas de empregos, além de diversas atividades, palestras e vivências. É conhecido como um ponto de produção de cultura. “É importante essa convivência, para que se crie um emponderamento acerca do assunto, compartilhar realidades”, disse Mário.

Além disso, a Secretaria de Estado da Segurança Pública de Sergipe (SSP) oferece serviços que atendem ao público LGBT. Em caso de dúvidas, é importante buscar a Delegacia de Atendimento a Crimes Homofóbicos, Racismo e Intolerância Religiosa (DACHRI) ou no Centro de Referência em Direitos Humanos de Prevenção e Combate à Homofobia. Neste local, o cidadão conta com uma equipe multidisciplinar, formada por psicólogos, assistentes sociais, assessores jurídicos e estagiários.

Pacto Nacional

Foi assinado o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência LGBTfóbica. O documento tem como proposta promover e articular ações que combatam a violência, priorizando o respeito à dignidade e  à diversidade humana.

No pacto, estados, Distrito Federal e o governo federal assumem o compromisso  de conjuntamente enfrentar a violência LGBTfóbica. Uma consultoria especializada via Nações Unidas foi contratada e fez visitas técnicas nas 27 unidades da Federação, que puderam opinar e trazer informações para elaboração do pacto.

Segundo a diretora de Promoção dos Direitos LGBT do Ministério dos Direitos Humanos, Marina Reidel, a medida “visa unir esforços em todo território brasileiro no combate à violência”.

* Estagiário sob supervisão da jornalista Fernanda Araújo.

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