Clarisse de Almeida
04/12/2017 13:55:00
Cidade para quem?

Muito se tem discutido os destinos das cidades no meio acadêmico e um pouco menos nos órgãos de gestão urbana. Excelente! Mas pensando bem, o caminho até “uma cidade para todos” é bem mais longo e árduo do que se possa imaginar. Até porque a noção geral é de que a cidade é terra de ninguém.

Raquel Rolnik, grande urbanista brasileira, afirma em seu discurso que “temos déficit de cidade”, e isso fica muito claro quando observamos o comportamento de nossa sociedade em relação aos espaços públicos e privados.

Sem querer entrar na seara do direito de propriedade, assunto polêmico, espinhoso e profundo demais para uma discussão superficial, podemos por enquanto observar o que se passa com o que é publico e com o que, embora seja “nosso”, tem um porcentual de responsabilidade na manutenção da saúde do espaço coletivo. Começando por estes últimos, me refiro a aqueles espaços que ainda que estejam dentro do nosso lote, nosso terreno, não estão disponíveis para serem edificados; regulamentados por leis muitas vezes ignoradas, devem vazios servir à cidade. São eles: os recuos obrigatórios, os afastamentos das divisas e as faixas “non edificandi”.

Traduzindo: recuos são faixas na testada, ou seja, na frente do lote, no limite do logradouro, que devem ficar livres; objetiva a possibilidade de um futuro alargamento da via em questão se necessário preservando a privacidade do imóvel, oferecer espaço que possa acolher copas de árvores que deveriam estar nas calçadas, a permissão aos raios solares de se projetarem nas vias públicas durante todo o dia, e a garantia de ampla perspectiva visual, tornando a massa construída leve e arejada. Suas dimensões variam de acordo com a largura da via, do bairro e da cidade.

Afastamentos: estes com medidas variando de acordo com o número de pavimentos que se pretende construir, visam garantir salubridade nas quadras edificadas, respeito ao direito do lote vizinho de receber sol e ventilação, assim como o nosso, e garantir a circulação de ar em todo o bairro.

Quem nunca ouviu dizer do calor absurdo que é provocado pelos prédios altos “colados” nas laterais dos lotes, aos seus vizinhos de fundos? Ou da escuridão e umidade que um paredão vizinho provocou na residência de alguém?

 E por fim, temos: áreas ou faixas “non aedificandi”, em latim como citadas na legislação, ou “não edificável” como seria mais fácil de entender. Estas podem existir em várias circunstâncias, ao redor de um lago ou de uma lagoa, na beira de um rio ou de um canal, na borda da praia, da mata ciliar, nas franjas de uma colina, na visada de uma paisagem especial etc. Podem variar de largura, mas invariavelmente são estabelecidas para preservar.

Preservar o que é de todos, mesmo estando no que é de alguém. O ambiente com suas complexas relações e agentes não discerne o que é publico do privado.  E cabe a nós, cidadãos, acolhermos as necessidades ambientais da nossa cidade para que todos possam usufruir dela.

Infelizmente a maioria não esta disposta a “perder nem um metro”. Na primeira oportunidade fazem aquelas famigeradas ampliações de suas casas até o muro, e se houver pouca vigilância, construirão até nas calçadas. Quantos “colam” suas casas nas quatro divisas e ainda abrem a “janelinha” em cobogós (elementos vazados) para o vizinho? A velha idéia de que “do meu muro para dentro mando eu”, pouco importa o que posso provocar ao outro.

Pare e dê uma olhada ao seu redor. Você é vítima de uma atitude egoísta destas? Ou inadvertidamente é o algoz de alguém? Não há gestão publica que consiga fiscalizar cada morador da cidade. Respeitar os vazios necessários em volta de nossas casas é tarefa individual, pelo coletivo. Questão de consciência!  Quando isto estiver sendo observado estaremos mais bem qualificados para falar do espaço público.

Sim, aquele que dele pensam como se pertencesse a ninguém. Mas que na verdade, pasmem, é de todos! Mas isso é assunto para outra ocasião, na Parte II de nossa reflexão. 

18/10/2017 00:48:00
Arquitetura para quem?

Domingo chegou ao fim mais uma Mostra de Arquitetura de Interiores, Decoração e Design em Aracaju. Badaladíssima, trouxe o que há de melhor e mais contemporâneo neste mercado. Sem dúvida excelentes ambientes, assinados por competentes profissionais de várias gerações, apresentaram móveis, objetos, luminárias e revestimentos, entre outros itens capazes de fazer sonhar qualquer mortal. Mas quantos de nós podemos mesmo consumir aquelas maravilhas?

Como nos desfiles de alta costura, dessas mostras derivam tendências que vão sendo simplificadas até se manifestarem em um ou outro detalhe na produção popular de mobiliário e acessórios para decoração. Ainda assim, poucos têm acesso a estes. 

 

              Ambiente da CASA COR São Paulo 2017. Fonte: Google Images

Todo esse glamour, embora promova os arquitetos como artistas de refinado gosto, e permita que alguns se transformem em celebridades, como Sig Bergamin, Marcelo Rosenbaum, Brunete Fraccaroli, nacionalmente conhecidos, inadvertidamente contribui para o distanciamento brutal entre a massa consumidora de espaços e os profissionais da arquitetura. Não raro encontramos quem diga que arquitetos só trabalham para ricos. Essa inverdade se dissemina de diversas maneiras e todos perdem: os profissionais, formados às centenas todos os anos, e os milhares de potenciais clientes que precisam de arquitetura e não acreditam que têm direito a ela. 

Hoje, em função dessa equivocada glamourização, dezenas de jovens ingressam nas faculdades acreditando que, ao se formar, automaticamente garantem seu passaporte para a classe AA. Não só acreditam que enriquecerão logo, como também que se notabilizarão trabalhando para clientes abastados. Ledo engano.

Nos primeiros anos de formado descobrem que, a menos que pertençam à classe AA, tenham um talento extraordinário, ou sejam atingidos por um golpe de sorte, uma longa caminhada servindo a diversos clientes, incluindo alguns menos favorecidos e atuando em serviços de todos os tamanhos, vai ser necessária até, talvez, alcançar as sonhadas fama e estabilidade.

Mesmo atravessando os cinco anos intensos, trabalhosos e apaixonantes do curso, muitos récem-formados não entendem a grandeza e responsabilidade de ser arquiteto. Como já escrevi aqui antes a respeito do papel do arquiteto, inclui-se todo o fazer do e para espaço, nas suas atribuições. Olhando para o mundo em que vivemos, onde apenas 1% da população pode consumir a arquitetura da moda, fica clara a missão deste profissional, presente nos juramentos feitos em suas diplomações, como este:

“Juro que, no cumprimento do meu dever de arquiteto urbanista, empregarei a ciência com dignidade, dinamismo e respeito, participando com amor e empenho nas grandes e pequenas obras, não me deixando cegar pelo brilho excessivo da tecnologia, nem me esquecendo de que a opção de trabalho se fará a partir da visão de justiça e ética que em mim se fizer presente. Defenderei a natureza, procurando projetar ou construir com critério e segurança, evitando a destruição da plenitude do equilíbrio ecológico. Colocarei então meu conhecimento científico voltado para o desenvolvimento e bem-estar da humanidade. Assim sendo, estarei em paz comigo e com Deus.”

ou mesmo neste mais simples:

“Prometo exercer a profissão de arquiteto e urbanista inspirado no sentimento de patriotismo, nos principios da honra e da ética, contribuindo para o interesse público e desenvolvimento social.

Assim o prometo.”

Ou seja, nossa missão inclui e seja isto nossa salvação, atender a todas as classes sociais, sendo o nosso maior e mais promissor mercado aquele que atende à classe aspirante - a média, conhecida como classe C. Menos exigente, portanto, permitindo trabalhos simultâneos, viabiliza ganhos para ambos os lados. Ganha o cliente, que passa a ter acesso a soluções criativas e funcionais para seus problemas espaciais, ganha o profissional que tem a possibilidade de atuar colocando em prática o seu conhecimento e, não menos importante, sendo remunerado.  

 

                                                    Casa Vila Matilde do escritório Terra e Tuma: Arquitetura simples, acessível e elegante.  Fonte: Google Images

Algumas atitudes devem ser imediatamente tomadas visando a aproximação desse público ao trabalho do arquiteto: 

  • Enxergar o potencial de consumo de arquitetura existente nas classes menos abastadas. TODOS constroem.
  • Aprender a usar materiais mais acessíveis, mais baratos, e ainda assim tornar tudo lindo e funcional. Muito fácil ficar tudo lindo usando materiais chiquérrimos. A arte é fazer mais com menos. 
  • Acatar os desejos, por mais simples que possam parecer, valorizando o “salto” do outro, que até ontem não acreditava ter direito ao nosso “ouvir”.

Inúmeras outras poderiam ser listadas, porém por hoje fecho com a seguinte:

- Ter prazer, muito mesmo, com o fim daquela “obrinha”, que usando acabamentos da loja de materiais de construção da esquina do bairro realizou o sonho e trouxe alegria para vida de alguém. 

 

                                                       Casa Alagoas do escritório Tavares Duayer Arquitetura: Mais com menos. Fonte: ArchDaily

05/10/2017 17:41:00
Do amor às árvores

Hoje a EMSURB fez uma limpeza geral na minha rua. As senhorinhas vizinhas, livres por um dia de suas ferozes vassouras, festejaram! Enfim aqueles montes de folhas amarelas das amendoeiras, com os quais elas lutam incansavelmente, foram levados e agora podem contemplar a tão sonhada rua nua.

Bem verdade, uma delas me segredou, que o seu desejo era que fossem levadas aos pedaços, como que punidas, as causadoras de suas angústias: as próprias árvores!

Ah, queridas vizinhas, como são inocentes! Ainda não perceberam a grandeza das árvores. Entes da mais alta dignidade, prestam serviços permanentemente à humanidade. Vejamos alguns; sim alguns, pois impossível listar todos:

No ambiente reduzem a temperatura, umidificam e filtram o ar de impurezas, amenizam ruídos,  reduzem a ação dos ventos e da poeira sem impedir a circulação do ar por ela renovado. Oferecem morada aos pássaros, aos micos, borboletas, soldadinhos e outros bichinhos que nos lembram que somos também criaturas, aplacando nossa solidão.

Suas belas copas, de tantos formatos, colorem as cidades, suas praças, avenidas e parques; suas folhas de variados tamanhos, em tons dos cítricos aos mais profundos verdes, dançam estimuladas pela brisa ao som da música que conhecemos como farfalhar, e nessa dinâmica caduca a folhagem que cobre de vida as calçadas cinzas das cidades.

Com sorte perto de nós vive um Flamboyant com sua floração vermelha, ou laranja; quem sabe uma Acácia com seus cachos de delicadas flores amarelas; ou o Ipê branco, rosa ou amarelo também? E haja alma para absorver tanta graça e beleza.

Emocionalmente as magníficas árvores então ancestralmente conectadas ao homem. No início, abrigavam os cultos, a religiosidade, a magia. Símbolos divinos, prometem vida e proteção – pense no Baobá, milhares de litros d’água reservados em seu caule para os viajantes do deserto, ou nas Mangueiras, nas Jaqueiras, Cajueiros e outras frutíferas, alimento bastante para humanos e animais. Em seus troncos, cascas milagrosas, curando nos chás e unguentos estão à disposição de quem as conhece e respeita.

Falando ainda de corações, sob suas generosas sombras refrescantes os romances são eternizados, com direito a registro esculpido no tronco a canivete; e balanços de corda em seus ramos pendurados, desde tempos imemoriais embalam os moços sonhadores e as crianças pequenas empurradas pelos pais. Nascemos, vivemos e morremos sob o testemunho de velhas árvores que sobrevivem a nós, por gerações, mas inexplicavelmente alguns ainda não conseguem amá-las. 

Nossa capital tem um triste índice de áreas verdes por habitante, é fato, assunto para outro texto, mas com certeza relacionado também a esse pouco amor dedicado às arbóreas. Podemos e devemos mudar esse quadro. Os arquitetos, urbanistas, paisagistas precisam estar em permanente campanha de arborização. Usar belas espécies regionais em seus projetos - o Mulungu, a Canafistula, a Craibeira, entre outras -, todas floridas, todas sombreadoras. Importante item, a sombra. Como falar de mobilidade urbana se não há conforto térmico para caminhar-se? O pedestre precisa de sombras!

Bem, e quanto aos cidadãos não tão especialistas? Como contribuir?

Poxa! Que bom que perguntaram!

Ok, começando a ver as árvores como parceiras, amigas, quase família. Não corte e não permita cortar por motivos torpes. Folhas não sujam calçadas, ao contrário, as embelezam. A poesia está nos olhos de quem vê. Plante mudas sempre que puder, observe características da espécie e mãos à obra! Vixe, mas vai demorar anos… Vai! Com sorte desfrutaremos, ou se não, deixamos uma vida melhor para as próximas gerações. Podem ser nossos filhos.

 

27/09/2017 15:22:00
Sobre os muros na cidade

Dia desses voltando da praia, lembrei-me de uma canção:

Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo à fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
(Engenheiros do Hawaii – Muros e Grades),

Especialmente do verso que fala em fantasia, que é a ideia equivocada de que muros cada vez mais altos em nossas cidades podem proteger seus moradores de invasões e roubos.

Muito ao contrário, quanto mais fechados e altos, mais isolam os castelos individuais da vida coletiva que, na formação das cidades no período neolítico, era justamente a garantia de sua segurança. Como se não tivesse sido exatamente o que se pretendia obter ao se agruparem os homens.

Inúmeros são os relatos de assaltos a residências que, por motivo de viagem ou qualquer ausência de seus donos, ainda que por breve tempo, tornaram-se alvos fáceis e convenientes para que fossem saqueadas, sem que ninguém percebesse que seus muros acolhiam em seu interior, sem qualquer objeção, justo aqueles a quem deviam ter impedido a entrada.

Sim, protegidos pelos paredões cegos podem passar dias inteiros escolhendo o que lhes interessa roubar, na intimidade da família ausente, e até contratar transporte adequado para carregar seu furto, com toda tranquilidade de quem sabe que não será perturbado por nenhum vizinho enxerido, pois não há como ser visto. Saem de muda sem nenhuma testemunha. E que surpresa quando do retorno dos moradores lesados: - “Ué?! Não eram vocês se mudando?!”


Rua cega: cenário ideal para a violência!


Pois é... Isto sim é real. Não se conhecem mais os vizinhos e não nos importamos com o que possa estar acontecendo do outro lado da rua, na casa em frente. Não existem os olhos da rua! Construímos muralhas na esperança de que estaremos salvos da violência que cresce a cada dia, até o dia em que, depois de um bem sucedido pulo, o marginal, dentro de nosso lar, nos rende sem a possibilidade de qualquer intervenção solidária. Entendamos quão melhor seria se nossos vizinhos pudessem nos ver!


Evolução dos muros nas cidades brasileiras. Das cerquinhas às muralhas!


Nos países desenvolvidos, mesmo nas grandes cidades, bairros inteiros dispõem suas residências lado a lado sem muros. Pequenas cercas, sebes e arbustos garantindo a privacidade necessária são suficientes para promover a segurança tão desejada. Quem não se lembra do filme “Esqueceram de Mim”, em que, ao ser deixado só, no feriado de Natal, o personagem menino-herói é de certa forma salvo pela visibilidade de sua casa?

Jane Jacobs, uma grande pensadora das cidades, em seu livro – Morte e Vida de Grandes Cidades – defende a comunicação visual das casas com as calçadas como fundamental para manter vivas as relações de vizinhança e a consequente vigilância solidária.

Pequenos truques arquitetônicos podem expor com sabedoria o acesso principal de uma casa, sem prejuízo algum para seus moradores. Quem não perceberia uma tentativa de arrombamento, então? Usaria um pé de cabra à vista de qualquer passante, mesmo um ladrão decidido?


Cidades vivas! Atividades misturadas.


Fica bem claro o equivoco e a oposta atitude a ser tomada. Precisamos das calçadas visíveis e levemente monitoradas, ruas vivas com pedestres indo e vindo. Misturar atividades e horários nos bairros. A setorização funcional do Modernismo não deu certo! Shoppings Centers e Condomínios Fechados adoeceram nossas cidades! Mas isso é pauta para outro texto.

Por ora, como medida urgente, fica plantada a ideia: Já foi se apresentar ao seu vizinho?

Então vá!

 

 

 

 

 

19/09/2017 14:32:00
O cinza nosso de cada de dia

O movimento moderno na arquitetura, entre muitas premissas, coroando seu aspecto funcional, aboliu a cor. Em seu apogeu, entre as décadas de 1940 e 1970, usar uma simples almofada colorida era motivo para duras críticas. Adornos, texturas, cores e detalhes eram absolutamente proibidos. “Desperdício!”- diziam os teóricos.

Perfeitamente compreensível quando todos os recursos financeiros eram necessários para a reconstrução de uma Europa destruída pela guerra. Não havia tempo nem dinheiro para o “Belo”. Como dizia um dos ícones daquela Escola Moderna, o brilhante Le Corbusier, a arquitetura deveria ser vista como uma máquina de morar, cumprindo exclusivamente o propósito de abrigar as funções básicas do homem daquela era industrial, emoções eram luxo puro então.

Nesse ideário nasceram os primeiros grandes conjuntos habitacionais, puros, secos e cinzas, os quais nossa jovem sociedade promissora, cheia de oportunidades e absolutamente tropical, importa sem maiores questionamentos. Embora tivéssemos muito para comemorar, um espirito alegre e um ambiente natural exuberante, passamos a nos expressar através do cinza, do branco, do bege, as cores neutras, as cores do politicamente correto.

Aprendemos a ficar econômicos, e mesmo quando o Pós-Moderno, movimento subsequente, herói do fim do século XX, tenta resgatar esses valores personalísticos na produção de edifícios, usando profusamente a cor e os adornos simbólicos da história, acusamos em coro uníssono suas obras de exageradas e cafonas.

Há um pudor, quase temor, em se utilizar a cor. É como assumir uma atitude, um significado, requer segurança e determinação. É correr risco! Nós, arquitetos, não nos permitimos errar. Sonhamos em preto e branco.

Morremos de inveja quando chegam a nós imagens dos casarios multicoloridos de Santorini, na Grécia, e de alguma forma temos certeza que vivendo lá seriamos felizes. No entanto, por um breve momento, pois se acaso nossas lembranças se voltam para nossos conjuntos arquitetônicos similares; o Pelourinho de Salvador, a Piranhas Imperial em Alagoas, ou qualquer casario de nossos interiores, relacionamos as cores vivas e berrantes ao popular, ao simplório, ou no máximo a um produto turístico e nos refugiamos nos tons pastéis de uma burguesia equivocada que se esquece que a nobreza que querem aparentar sempre abusou das cores, como testificam os registros dos aposentos de Maria Antonieta, no Versalhes; os salōes do Palácio Real, em Madrid; o Palácio dos Médicis, em Florença, entre tantos outros.

O “popular”, como julgam muitos, se permite identificar através das cores. Suas casas rosas, azuis e amarelos estimulam e provocam sensações, revelam quem são seus donos e seus sentimentos. Seus detalhes ofuscantes em vermelhos, verdes, roxos, nos estimulam, agitam e trazem memórias, sem medo, sem pretensões.

Nossas cidades cada vez mais cinzas, onde em condomínios inteiros toda as casas ou prédios são em cores neutras, necessitam urgente de cor. Cor para nos lembrar de nossas humanidades, despertar nossas almas e nos sentirmos vivos. Sim, vivos!

E viva o vermelho, o azul, o lilás, o amarelo, o…


Palácio de inverno de San Petersburgo


Condomínio de casas brancas na Bahia


Cor no salão de jantar Palácio de Aim na Inglaterra

 

12/09/2017 09:50:00
Considerações sobre o Arquiteto

Embora no cotidiano de nossa sociedade, mais do que nunca o arquiteto já esteja presente, ainda pairam muitas dúvidas sobre a atuação deste profissional multidisciplinar.

 

Sendo considerada a mais antiga das profissões, a arquitetura testemunha a evolução da humanidade desde a pré-historia, se responsabilizando pelos registros mais extraordinários desta, através das edificações e monumentos que sobrevivem ao tempo e contam nossa história. Este é o primeiro encantamento da profissão, a possibilidade da eternidade.

 

Não menos encantador é objetivo do fazer arquitetônico: criar espaços para o viver do homem; para todas, e isso quer dizer todas mesmo, as funções do homem, quer sejam dentro ou fora de edifícios, quer sejam para pequenos ou grandes grupos, para trabalhar, morar, cultuar, produzir, se divertir e etc.

 

Posto isto, convenhamos que satisfazer as exigências espaciais deste ser complexo,  plural, do século XXI, requer um volume enorme de informações. Ainda no século I, durante o Império Romano houve um arquiteto que, escrevendo o primeiro tratado sobre a matéria, definiu, no capitulo I de sua obra, o seguinte:

 

“E, assim, parece que aquele que pretende  ser arquiteto deverá se exercitar numa e noutra parte. Convém que seja engenhoso e hábil para a disciplina, de fato, nem o engenho sem a disciplina nem esta sem aquele podem criar um artista perfeito. Deverá ser versado em literatura, perito no desenho gráfico, erudito em geometria, deverá conhecer muitas narrativas de fatos históricos. Ouvir diligentemente os filósofos, saber de música, não ser ignorante em medicina, conhecer decisões dos jurisconsultos, ter conhecimento da astronomia e das orientações da abóbada celeste.” Vitrúvio

 

Sem dúvida parece ser quase impossível se exigir tanto conhecimento dos arquitetos, mas o fato é que sim, faz-se necessário dose extra de sensibilidade às disciplinas envoltórias da vida humana para ela compreender-se, razão pela qual aqueles arquitetos cientes de sua missão vivem seus dias mergulhados na percepção das atividades do homem em todos os seus aspectos e desdobramentos espaciais, o que os tornam criaturas de alta capacidade critica e interpretativa que, ao final, transforma-se em matéria edificada.

 

Sendo matéria igualmente pertinente ao três campos do conhecimento: ao técnico, ao artístico, ao humanístico, a arquitetura utiliza os três para se realizar. O tripé resistência/estabilidade x beleza/harmonia x função/utilidade é a base da boa arquitetura. Presente na concepção desde uma simples cozinha, até a uma cidade inteira, passando por todas as escalas de edifícios, é ao mesmo tempo produto e produtora da vida humana.

 

Atualmente em tempos de especialização, desdobrou-se a atuação em  inúmeros campos com raízes na arquitetura, urbanismo e paisagismo. A primeira pertinente aos edifícios; novos, a restaurar, e a decorar; O segundo relativo às cidades, seus desenhos, circulação, ocupação e gestão; E o último tocante ao relacionamento do homem com o ambiente natural, na concepção de praças, parques e jardins. Finalizando, deixo aqui algumas definições desta matéria de autoria do mestre Lucio Costa, o arquiteto criador da cidade de Brasília, nossa bela capital ornada pelos prédios do fabuloso Niemeyer:

 

“Arquitetura é coisa para ser exposta à intempérie e a um determinado ambiente; arquitetura é coisa  para ser encarada na medida das idéias e do corpo do homem; arquitetura é coisa para ser concebida como um todo orgânico e funcional; arquitetura é coisa para ser pensada estruturalmente; arquitetura é coisa para ser sentida em termos de espaço e volume, arquitetura é coisa para ser vivida.”

 

Cozinha    

Fonte: Florense

Desenho urbano de Brasília 

Fonte: Sergey Ryazanskiy

Colunista Clarissae de Almeida
Clarisse de Almeida
Arquiteta e Urbanista pela Faculdade de Arquitetura Silva e Souza – FAUSS/RJ (1983), especialista em Tecnologia Educacional pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ (1997) e em Paisagismo pela Universidade Federal de Lavras – UFLA/MG (2003). Atua com ênfase em Desenho Urbano e Projetos de Edificação e Paisagismo. Ocupou cargos na Superintendência de Planejamento Urbano – SUPLAN, na Secretaria de Obras da Prefeitura Municipal de Aracaju e integrou o GEPE – Grupo Executivo de Projetos Especiais também da Prefeitura de Aracaju. Leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tiradentes. Possui trabalhos reconhecidos nacionalmente e tem sido palestrante em variados eventos. É autora do projeto de Urbanização do Calçadão da Praia 13 de Julho e das Orlas de Canindé de São Francisco, entre outras Orlas Ribeirinhas no Sul do Estado de Sergipe. Tem no acervo diversos condomínios horizontais em Sergipe, Bahia e Pernambuco, assim como edifícios comerciais e residenciais, tais como o prédio do Colégio Liceu de Estudos Integrados, o Condomínio Imperattor, o Condomínio Mares da Grécia, entre outros. Atualmente é membro da equipe do Ágora Arquitetos Associados.

 

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do colunista.

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