O 100º Prêmio Nobel da Paz
Blogs e Colunas | Saumíneo Nascimento 03/02/2019 06:46 - Atualizado em 04/02/2019 12:03

Em outubro de 2019 conheceremos quem irá ganhar o 100º Prêmio Nobel da Paz. Os dados da Fundação Nobel apontam que o Prêmio Nobel da Paz foi concedido 99 vezes distribuído com 133 laureados que, no período de 1901 a 2018, contemplou 106 pessoas e 27 organizações.

A diferença entre 99 vezes e 133 premiados é porque existiram premiações compartilhadas (30 Prêmios Nobel da Paz foram compartilhados por dois laureados e dois foram divididos entre três pessoas). Nas outras 67 premiações apenas um laureado ganhou o prêmio Nobel da Paz.

O próximo será o 100º ganhador e poderá ser mais lembrado exatamente por este número cabalístico.

Dois Prêmios da Paz foram divididos entre três pessoas. O Prêmio Nobel da Paz de 1994 a Yasser Arafat, Shimon Peres e Yitzhak Rabin, e o Prêmio Nobel da Paz de 2011 a Ellen Johnson Sirleaf, Leymah Gbowee e Tawakkol Karman.

Na primeira premiação, em 1901, foram dois laureados: o suíço Jean Henry Dunant e o francês Frédéric Passy. O suiço ganhou o prêmio por ter sido o Fundador do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e que depois originou a Convenção de Genebra; já o francês ganhou o prêmio porque fundou e presidiu a primeira sociedade de paz da França, além disso, também foi um dos fundadores da União Internacional Interparlamentar, uma organização de cooperação entre os representantes eleitos de diferentes países.

Existem destaques na premiação, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz três vezes (em 1917, 1944 e 1963), e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz duas vezes (em 1954 e 1981). Além disso, existem 24 organizações individuais que receberam o Prêmio Nobel da Paz.

A referência para ser um laureado com o Prêmio Nobel da Paz é que as pessoas ou instituições tenham feito o melhor trabalho para a fraternidade entre as nações, a busca pela abolição ou redução da permanência de exércitos e a realização e promoção de congressos que objetivem a paz.

Vale aqui relembrar que no ano passado, 2018, o Prêmio Nobel da Paz foi concedido a Denis Mukwege e a Nadia Murad, pelos esforços deles  em acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra e conflito armado.

Denis Mukwege nasceu em 1º de março de 1955 no antigo Congo Belga, atual República Democrática do Congo. Mukwege estudou medicina em Bujumbura, na Universidade do Burundi, e formou-se em medicina em 1983. Para ajudar mulheres feridas durante o parto, ele continuou seus estudos em ginecologia na Universidade de Angers, na França. Em 1999, fundou o Hospital Panzi em Bukavu, onde milhares de vítimas de violência sexual durante conflitos armados foram tratadas. Embora ele tenha sido alvo de tentativa de homicídio, ainda está ativo lá.

A fundação Nobel entende que a violência sexual como arma de guerra e conflito armado constitui tanto um crime de guerra como uma ameaça à paz e à segurança. Como cirurgião, Denis Mukwege ajudou milhares de vítimas de violência sexual em conflitos armados na República Democrática do Congo. Tanto a nível nacional como internacional, condenou reiteradamente a impunidade por violações em massa e criticou o governo congolês e outros países por não fazerem o suficiente para impedir o uso da violência sexual contra as mulheres como estratégia e arma de guerra. Foram estas as suas credenciais para ser laureado.

Nádia Murada nasceu em 1993 em Kojo, no Iraque. Quando ela tinha 19 anos, o Estado Islâmico atacou sua aldeia e matou 600 homens yazidis, incluindo vários de seus familiares. Murad e outras jovens foram feitas prisioneiras e sujeitas a espancamentos e estupros. Nadia Murad foi repetidamente submetida a estupros e outros abusos. Depois de três meses, conseguiu fugir. Ela agora trabalha para ajudar mulheres e crianças vítimas de abuso e tráfico humano. Quando ela conseguiu escapar, foi para um campo de refugiados e oferecida a oportunidade de se mudar para a Alemanha, onde ela agora mora.

No Prêmio Nobel da Paz, das 106 pessoas laureadas, já tivemos 17 mulheres, sendo uma delas a mais jovem premiada com um Nobel da Paz, Malala  Yousafzai, que tinha 17 anos quando recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2014.

O mais velho laureado com o Prêmio Nobel da Paz até o momento é Joseph Rotblat, que tinha 87 anos quando recebeu o prêmio em 1995.

O Prêmio Nobel da Paz não foi concedido em 19 ocasiões: em 1914-1916, 1918, 1923, 1924, 1928, 1932, 1939-1943, 1948, 1955-1956, 1966-1967 e 1972. A razão é porque nos estatutos da Fundação Nobel, consta a possibilidade de que nenhuma das obras consideradas pelos indicados tenha importância para a promoção da paz e isto foi muito recorrente no período da primeira e da segunda guerras mundiais.

Conforme dados da Fundação Nobel, existiu uma ocasião em que o ganhador do Prêmio Nobel da Paz recusou a premiação. O político vietnamita Le Duc Tho, premiado com o Prêmio Nobel da Paz de 1973, em conjunto com o secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, é a única pessoa que recusou o Prêmio Nobel da Paz. Ambos receberam o Prêmio por negociar o acordo de paz do Vietnã. Le Doc Tho disse que não estava em condições de aceitar o Prêmio Nobel, citando a situação no Vietnã como sua razão.

Importante registrarmos que o Prêmio Nobel da Paz já foi concedido a prisioneiros na época da premiação: o pacifista e jornalista alemão Carl von Ossietzky; o político birmanês Aung San Suu Kyi e o ativista chinês de direitos humanos Liu Xiaobo.

Ser indicado para um Prêmio Nobel acaba não sendo efetivamente um endosso oficial ou honra estendida para implicar afiliação com o Prêmio ou suas instituições relacionadas. Segundo a Fundação Nobel, as indicações para o Prêmio Nobel da Paz não exigem convite e podem ser enviadas de todos os cantos do mundo para o Comitê Nobel norueguês. A ampla elegibilidade dos indicados significa que milhares de pessoas, sem nenhuma afiliação ao Comitê do Nobel podem apresentar um nome e motivar sua opinião sobre o motivo pelo qual consideram um candidato digno. Isto é o que difere o processo de seleção para o Prêmio Nobel da Paz de muitos outros prêmios, onde a concessão de comitês ou academias selecionam todos os indicados, bem como o vencedor.

Um caso famoso de indicado ao Prêmio Nobel e que nunca foi laureado é o de Mahatma Gandhi. Ele, como um dos símbolos mais fortes da não violência no século XX, foi indicado a concorrer em 1937, 1938, 1939, 1947 e, finalmente, pouco antes de ser assassinado, em janeiro de 1948. Porém ele nunca ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Como homenagem, a Fundação Nobel, através do comitê norueguês do Nobel, no ano em que ele foi assinado, decidiu não premiar ninguém naquele ano, alegando que “não havia nenhum candidato vivo adequado”, possivelmente iria ser o Gandhi o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1948.

O comitê norueguês do Nobel, que é responsável por selecionar os laureados do Prêmio Nobel da Paz, informa que uma indicação para o Prêmio Nobel da Paz pode ser submetida por qualquer pessoa qualificada para nomear. Os nomes dos indicados não podem ser revelados até 50 anos depois, mas o comitê do Prêmio Nobel da Paz revela o número de candidatos a cada ano.

Para termos uma ideia da dimensão da disputa, registra-se que para o Prêmio Nobel da Paz de 2018 existiam 331 candidatos, dos quais 216 eram indivíduos e 115 eram organizações. Os Comitês Nobel de Física, Química, Fisiologia ou Medicina, Literatura e o Comitê de Ciências Econômicas recebem, cada um, 250-300 nomes todos os anos - sendo que 331 são o segundo maior número de candidatos de todos os tempos. O recorde de 376 candidatos foi estabelecido em 2016. Talvez para este 100º Prêmio Nobel da Paz ocorra um novo recorde de indicados, o que dificulta a previsão de quem poderá ser o laureado.

Nos primeiros cem anos do Prêmio Nobel da Paz (1901-2001) ocorreram 4.857 indicações e foram premiados 109 indivíduos e organizações. As indicações dos 100 primeiros anos foram originárias das seguintes regiões: Europa (2017), América do Norte (964), Ásia (677), América Latina (345), África (164) e 690 foram de Organizações Internacionais.

Mas quem será o 100º ganhador do Prêmio Nobel da Paz? Um indivíduo, dois ou três (que é o limite), uma organização de Direitos Humanos? Não existe nenhum favorito, pois em geral muitos são os indicados para o prêmio.

Que o 100º ganhador do Prêmio Nobel da Paz possa usar a simbologia da premiação para continuar seus trabalhos de promoção da manutenção da paz entre as nações, pois entendo que ainda é possível resolver conflitos por meios pacíficos. Necessitamos de um mundo mais pacífico, da construção de sociedades que prosperem e que usem a inteligência para a promoção da paz.

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Saumíneo Nascimento
Saumíneo Nascimento é Economista, Mestre e Doutor em Geografia, tem Pós-Doutorado em Ciência da Propriedade Intelectual pela UFS, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, da Associação Brasileira de Relações Internacionais e da Academia Nacional de Economia.

E-mail: saumineon@gmail.com


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