UMA ESCOLA ARACAJUANA E UMA MENININHA NEGRA
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 26/10/2018 19:12

A escola é de elite, oferece ensino de excelência, e por isso cobra o preço compatível com nível que alcançou. Numa das turmas onde estudam crianças com média de idade de oito anos, há uma criança negra.

Como é tacitamente reconhecido, sem recorrer a constatações cientificas, apenas com as observações empíricas do nosso dia a dia, somos um país etnicamente perfeito, porque aqui reunimos todas as raças, e a característica maior é a predominância da raça negra.

Se etnicamente conseguimos formar aquele ¨melting pot¨, a caracterização anglo-saxônica para o caldeirão de raças, estamos, todavia, muito distantes da perfeição social que seria a igualdade de todas as cores de pele que formam o nosso universo humano.

Desgraçadamente, na onda de intolerâncias político-ideológicas que envenenam o nosso cenário social, espalha-se a contaminação criminosa de uma aberração: O racismo.

Velhas e maléficas tendências que tanto mal causaram ao mundo, estão sendo revisitadas, sob o pretexto de um ¨conservadorismo¨ que é, na verdade, uma forma, digamos assim, conveniente, de ocultar a profunda aversão que uma considerável parte da sociedade brasileira ainda alimenta em relação a tudo o que possa significar liberdade, igualdade, fraternidade, aquela consigna  com a qual a Revolução Francesa no final do século dezoito desafiou o absolutismo, e os privilégios de uma casta entendida como superior, posto que protegida por um suposto ¨direito divino ¨,   do qual a massa enorme dos famintos começava a desconfiar.

Passam os séculos, e as trevas de tudo o que nos faz desumanos ainda persistem, e em certas circunstâncias, como as que agora vivemos, se tornam ainda mais densas, porque sentimentos recalcados descobrem que seria o momento exato para se revelarem.

Essas trevas invadem as escolas, até as universidades, onde jovens aderem a uma sebosa ideia de supremacia branca.

 Tais inconcebíveis  visões, são as   mesmas que levaram um sociopata senhor da Alemanha, e quase do mundo,  a promover a ¨limpeza étnica¨,  o holocausto, que levou às câmaras de gás seis milhões de judeus, ciganos, eslavos, dissidentes políticos, homossexuais, as ¨raças inferiores¨, que teriam de desaparecer para que prevalecessem os alemães ¨puros¨, brancos, loiros, de olhos azuis, crânios dolicocéfalos, a raça ariana, que seria a única senhora do mundo.

Voltemos então à escola aracajuana onde, numa sala estuda a criança negra, cercada de coleguinhas, todos brancos. Não haveria nada de estranho nisso, apenas, uma violação benfazeja daquele estigma social que condena negros, pardos, mulatos, os pobres, a ficarem confinados nas escolas públicas das periferias, onde, note-se, a presença de brancos é minoritária.

Dai, a estranheza de meninos brancos em relação à proximidade da negra. E essa estranheza não nasce nos cérebros limpos das crianças,  ainda não contaminados  pela barbárie que lhes é inculcada  pelos pais brancos, intolerantes, saudosos da Casa Grande, tendo ao lado, subjugada, humilhada, a Senzala,  gueto onde se confinavam os negros, os ¨sub-humanos¨, que deveriam servir como burros de carga aos seus senhores.

Século vinte e um, a ciência desvenda o cosmos, a  física quântica com todas as suas conquistas, a neurociência, nos prometem um mundo que nenhum futurologista ousou decifrar com precisão, sociedades quase perfeitas, se desenham com liberdade, democracia, igualdade, na Europa dos países sociais-democratas, e aqui, numa sala de uma escola de elite, uma criança negra é discriminada, ofendida, chamada de ¨preta de cabelo de arame¨, e uma  criança loira, que dela é a melhor amiga, e a  defende, é recriminada por outra, sob a alegação de que uma branca não pode ser amiga de uma negra, muito menos  defende-la,  e mostrar-se solidária, num gesto de civilidade que deveria ser característica inseparável da espécie humana.

A direção da escola, cuidadosa no trato com tão delicado problema, levou, às crianças envolvidas no triste acontecimento o auxilio de psicólogos. Eles ficaram espantados com o grau de deterioração na sociabilidade, no senso de igualdade social, naquelas crianças devastadas em seu estado de inocência pela narrativa do ódio, do processo de animalização que vivem, nascido nos seus lares, onde, certamente, os pais se consideram integrantes de sólidas, respeitáveis e honradas famílias ¨cristãs¨.

O DELEGADO SENADOR E INGRATO AOS ELEITORES

(Da nova para a velha política)

O delegado Alessandro, um quase desconhecido, não foi eleito senador na onda de um fenômeno que traduzisse quebra dos paradigmas que norteiam a nossa política tradicional, ou a ¨Velha Política¨, como ele definiu o cenário do que  chamou   o ¨outro lado¨, aquele, do qual guardava uma providencial distância.

Contraditoriamente, a eleição do delegado que fazia uma clivagem bem nítida entre ele próprio e os demais grupamentos políticos de Sergipe, foi o resultado da soma de votos que o ¨outro lado¨ a ele conduziu.

Há, sem dúvidas, a soma de votos considerável,  partida daqueles eleitores sem opções  que lhes agradassem entre os outros candidato ao Senado, e viram, no jovem delegado uma cara nova, entre as tão recorrentes faces tradicionais da política sergipana. Em reforço a Alessandro, nesse clima em que se considera que a corrupção é o resultado da tolerância ou conivência existente entre os políticos, surgia o policial que participara de um grupo exatamente voltado para a identificação do processo de lavagem de dinheiro. Esse grupo, criado pelo atual delegado e Secretario da Segurança, João Eloy, existia, e continua trabalhando no mesmo ritmo, sem as presenças tanto do delegado Alessandro, como da delegada Daniela Garcia, agora transformada em tábua de salvação na qual se agarra o candidato Valadarizinho.

Para combater a corrupção são dispensáveis tanto a luz dos holofotes das Tvs, como o sensacionalismo em rádios e jornais, mas, para iniciar uma carreira política com sucesso a curto prazo, ser armado cavaleiro, com cota de malha e lança, pronto a abater corruptos, é a melhor forma de marketing em nossos tão inusitados tempos.

Mas, essa circunstância especialíssima não resultaria em votos suficientes para o sucesso de uma candidatura majoritária.

O que ocorreu em favor do delegado e em desfavor dos demais concorrentes, foi o fato de que todos os dois nos diversos partidos,  desentenderam-se, brigaram entre eles mesmos, e como o eleitor queria votar em dois candidatos, onde havia liderança politica com capacidade de orientar e comandar eleitores, eles foram induzidos à segunda opção, exatamente em Alessandro, que, no entender dos candidatos, teria uma boa votação, mas, sem chegar a ameaçá-los. Esse processo conduziu mais de cem mil votos para Alessandro. Os outros votos que seriam muitos, mas sem potencial para elegê-lo, partiram daqueles que, de fato, o tinham como opção preferencial, e queriam ter novas alternativas, sem as marcas da ¨velha política¨. Alessandro chegou a incluir em duras críticas, tanto Valadares pai como Valadares Filho, acusando-os de adotarem as práticas mais reprováveis do jogo político.

Quando o senador eleito se atrela agora ao carro de Valadares Filho, chegando como um providencial reforço de campanha, os seus eleitores que nele enxergaram o novo, distante da ¨velha política¨, acabam por ficar decepcionados, e diante deles a ¨novidade¨ se desfaz.

Esses eleitores, numerosos, já se consideram traídos, ou se sentem magoados, porque o delegado eleito senador não teria demonstrado coerência, e muito menos uma afinidade, após as eleições, com os sentimentos que para ele moveram os votos, e, pior ainda, teria sido ingrato.

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Luiz Eduardo Costa
É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com


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