O COMÉRCIO DE EUCLIDES E A “DIPLOMACIA” DE BOLSONARO
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 05/04/2019 13:25

Euclides, do qual estamos aqui a tratar, não é o grego que viveu por volta do ano 300 antes de Cristo. Mas, sobre o grego tracemos algumas econômicas linhas.

Ele nasceu em Atenas, onde se supõe que tenha estudado com um dos alunos de Platão, e foi viver no Egito, na cidade que Alexandre o Grande mandara construir, depois de expulsar os persas das vizinhanças do Nilo. Em Alexandria Euclides juntou-se ao grupo de sábios que se reuniam na Biblioteca, parte do Museu, o templo às musas e ao saber, construído pelo general Ptolomeu, nomeado por Alexandre para governar o Egito, e que se intitulou Soter, (Salvador).

Euclides escreveu o livro Elementos, ou, segundo historiadores, coligiu em um só manuscrito 13 textos esparsos, escritos por outros matemáticos.

Elementos, contem a base a partir da qual evoluíram os conhecimentos matemáticos, na geometria plana e espacial, e teoria dos números. E é, também, um princípio conceitual que, através da formulação dos axiomas, permitiu o avanço das ciências exatas.

Euclides começa definindo: “Ponto é aquilo de que nada é parte. E linha é comprimento sem largura”.

E por aí vai, até chegar aos poliedros regulares, que o astrônomo e matemático Kepler usaria, mais de mil e quinhentos anos depois para mapear a órbita dos planetas.

Vamos porém ao outro Euclides, que aqui nos interessa mais. Trata-se do homem a quem os itabaianenses chamavam de “Seu Ocrides” escandindo a pronúncia com a entonação própria de quem simpatiza, ou odeia.

Euclides Paes Mendonça foi um líder político autoritário, de punho forte, e um empresário que avançava com intuição e vivacidade, indo além do acanhamento da nossa economia, contaminada pelo mesmo ritmo decadente dos engenhos que iam apagando seus fogos.

Euclides, com ousadia, foi ocupando os vazios deixados pela aristocracia canavieira com morte econômica anunciada, e batendo em retirada dos seus espaços de riqueza e poder, que a genealogia lhes garantira.

Euclides veio do quase nada, e sabia o que é carregar sacos nas costas, da mesma forma os seus irmãos, Pedro e Mamede, que foram além dele, e criaram impérios econômicos.

Euclides foi Prefeito de Itabaiana, deputado estadual, e morreu sendo deputado federal, assassinado por policiais junto ao filho Antônio. Ele fazia política assistencialista, assim, assegurava o apoio das massas empobrecidas, e exercia um comando rígido sobre os aliados.

Tinha tempo para os seus negócios, e a política lhe ocupava sempre. Um dia, chegando ao seu armazém de secos e molhados, lá encontrou um pequeno comerciante que fazia compras para revender em Carira. Euclides aproximou-se dele, abriu largo sorriso, o convidou a tomar um cafezinho, e ficaram a conversar. Quando o homem, que era um cliente novo saiu, o gerente do armazém chamou Euclides ao lado, e lhe disse quase segredando: “Seu Ocrides, aquele camarada é rabo branco, (pessedista) não é seu amigo, e não vai votar em doutor Leandro, e o senhor gosta tanto assim dele?”

Alteando a voz, respondeu Euclides: “Eu sei disso, mas ele é um freguês bom, escolheu, pagou, e me deu preferência. Se eu não agradar, ele vai ali perto e compra fiado no armazém de Manoel Teles, que é do partido dele, e chefe dos “rabos brancos” aqui de Itabaiana, e meu inimigo. Eu posso ser bruto, mas burro não sou”.

Dos dois Euclides passemos ao que vem sendo posto em prática na política externa pelo presidente Bolsonaro, acolitado da pior forma possível pelo Ministro das Relações Exteriores, que é apenas um aborto, surgido na sensata e pragmática Casa de Rio Branco, o Itamaraty. Diante do pragmatismo de resultados que caracterizava a diplomacia brasileira, com toda uma tradição de cultura, reverencia à inteligência, e trânsito equilibrado entre os confrontos e o pluralismo, o que aconteceu em Israel e nos Estados Unidos não pode ser considerado, nem de longe, como política externa de um país soberano.

Acabou a diplomacia, entraram em cena o extremismo, os delírios radicais de uma turma desajuizada, toda ela cabendo na classificação que fez o general Santos Cruz do guru de todos eles, Olavo de Carvalho: “um personagem histérico”.

Basta colocar no plural.

E agora reencontramos os dois Euclides, para, embora pareça estranho, sentir a ausência deles nas “ações diplomáticas” do presidente Bolsonaro. Quando é ignorada pelo presidente a dimensão exata de mercados, de valores monetários que estão em jogo, o Euclides grego é lembrado como o sábio que buscava a exatidão matemática com o objetivo de melhor entender o mundo, e dar ao homem mecanismos para deslanchar o progresso.

Por outro lado, a intuição e a esperteza na vida prática reveladas pelo outro Euclides, que tinha sempre sucesso nos seus negócios, nos leva à decepcionante constatação da ausência desses elementos essenciais na agora radicalizada e personalista diplomacia brasileira.

Fazendo declarações de amor a Israel, chamando Netaniahu de “meu irmão”, batendo continência para a bandeira americana, e entrando no jogo perigoso de Donald Trump, Bolsonaro parece desconhecer o tamanho do mercado israelense, a incipiência do comércio que temos com aquele país, por outro lado, revela não ter uma ideia exata das nossas relações comerciais com o mundo, onde, para nós, os Estados Unidos em termos de comércio internacional não representam nem um terço do volume de negócios que temos com a China.

Somando-se os muçulmanos, que o filho senador do presidente desejou vê-los “se explodindo”, à população da China, forma-se um colossal mercado de mais de três bilhões de consumidores, quase metade da população do planeta, e cada vez nos comprando mais carne, mais soja, mais minérios, armamentos, aviões, sapatos, bois vivos, e, com muito dinheiro em caixa para aqui investir.

O presidente Bolsonaro deve ter ouvido falar em Euclides, o sábio de antes de Cristo, afinal, ele estudou a geometria ¨euclidiana¨ no colégio militar, já do Euclides de Itabaiana, político e comerciante, ele não tem a menor ideia.

Mas, se um desses dias ele encontrasse tempo para vir à Itabaiana, a terra de tantos “Ocrides”, excelentes e prósperos comerciantes, ele, de algum deles ouviria o conselho: “Seja fino e educado com os americanos, e com os israelenses, e nem precisa dizer que é “irmão” deles, mas, vá correndo, vá fazer logo um “agradinho” aos árabes, aos chineses, a gente aqui quer vender até castanha de caju pra eles”.

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LEVA E TRAZ

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UM SUFOCO E UMA FOLGA

Em Sergipe o sufoco financeiro é quase exclusivo nas costas do poder executivo. Os outros, judiciário, legislativo, e os quase poderes: ministério público e tribunal de contas, vão muito bem, obrigado.

Neles, os servidores de todos os níveis, inclusive as excelências do topo da pirâmide, recebem seus salários rigorosamente em dia, uma semana antes do final do mês. E não querem nem ouvir falar em receberem todos no final do mês, para que o executivo possa antecipar do dia 12 para o dia 5 o pagamento dos servidores que recebem mais de 3 mil reais, inclusive os policiais, que, quase todos os dias arriscam a vida, para dar sossego a todo o resto.

Essa parcela de “mar de almirante”, onde nem parece que entram as tormentas assolando o barco do executivo, se deve a um equívoco, tanto na burocracia como na norma constitucional, quando, o executivo para corrigir uma anomalia que não era sua, acordou em custear, magnânimo, as despesas de todos com a previdência. Fez isso, e esqueceu-se, ou o fizeram “esquecer”, definitivamente, de descontar o que é gasto com um setor já incluído no orçamento dos demais, e esse orçamento permanece intocado, e íntegro.

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CONTROLANDO SEM ALARDE

Antes, em Sergipe, na Controladoria Geral o Controlador era quase um principezinho, vaidoso, naturalmente, por ser ele o suposto vigia atento e único do que faziam os integrantes do “resto do governo”. E se a empáfia pudesse transitar livremente, o Controlador que pedalava em maratonas ciclísticas, para derrotar, suando e pedalando a corrupção, teria colocado a pedalar todos os servidores do estado.

Quando Eliziário Sobral chegou à Controladoria, foi-se a empáfia, e sobrou o bom senso, foi-se a arrogância, e sobrou a serenidade do diálogo, e a Controladoria exerceu o seu papel sem alardes ou atropelos. Depois, houve uma troca: Eliziário substituiu Alexandre Figueiredo na Controladoria de Aracaju, e cedeu seu lugar a Alexandre, que saíra de uma disputa pela Câmara Federal, tendo alcançado a segunda suplência. O jovem advogado vem da boa estirpe de exemplos de responsabilidade pública, dos pais, Benedito Figueiredo, advogado e político, e da mãe, Creuza Figueiredo, Procuradora, que exerceu seu ofício com eficaz simplicidade.

Alexandre, com sabedoria, deu sequência ao trabalho de Eliziário, e completa agora a criação da Ouvidoria Geral do Estado, anexada à Controladoria, contando com a participação valiosa do técnico Elder Sandes Vieira no cargo de Ouvidor-Geral, e na Ouvidoria ficam dois técnicos no setor, Allan Roosivan e Eduardo Almeida.

Controladoria não é para ser badalada, mas, para agir silenciosamente, sem alarde do que faz. Até mesmo para não constranger desnecessariamente, e os constrangidos indevidamente, virem a processar o Controlador, movido por ânsias persecutórias.

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A “JABUTICABA” DO BOI

Afirmam convictamente os botânicos, que a jabuticaba é fruta exclusivamente brasileira. Por um desses caprichos da natureza, a planta restringiu-se ao nosso território, o que não é pouca coisa, mas, preferiu o sudeste, Minas, Rio, São Paulo, Espírito Santo, preferencialmente, mas é vista descolada em outras áreas.

Ampliando sua bagagem teórica e prática para fazer uma segura defesa da importância da FAFEN, o Secretário do Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, engenheiro José Augusto, descobriu que aquela indústria agora “hibernando”, por equivocada imposição da Petrobras, fabricava aqui uma “jaboticaba”. Era a ureia pecuária da forma como produzida e embalada, sendo única no Brasil. E sem ela os pecuaristas que se cuidem. O agrônomo José Dias, lendo uma postagem do presidente Bolsonaro anunciando que em junho virá ao Brasil uma missão comercial americana para verificar a qualidade sanitária da nossa carne, ficou preocupado, porque sem a ureia pecuária que a FAFEN produzia os nossos rebanhos não estarão gordos e saudáveis para serem exibidos aos americanos, aliás, os nossos maiores concorrentes no mercado internacional de carnes. Será que Bolsonaro sabe que a FAFEN fechou?

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O PREGO NA PAREDE

O governador Belivaldo mandou afixar um prego bem no meio da parede em frente ao seu gabinete de trabalho. O prego fica lá, esperando que chegue a foto oficial do presidente Bolsonaro para nele ser pendurada, com todas as honras.

Não haverá prego para a foto oficial do governador, que não segue um habito que percorre o tempo, desde que a fotografia entre nós fez a estreia.

Da mesma forma que eliminou o logotipo para caracterizar o seu governo, outro hábito do qual não escaparam os governadores e interventores desde Gracho Cardoso, Belivaldo elimina agora a foto oficial.

Diz que faz economia, e evita o personalismo, a burocracia e formalidade. O logotipo que está agora em todos os documentos oficiais, é aquele antigo e original desde a província, com os dois índios segurando um humilde balão de cestinha, e a inscrição “Sub Legis Liberta”.

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A REVOADA E O AFETO

Houve uma revoada de Aracaju para Recife, e faltou vaga nos escassos voos que ainda nos restam. Eram os operadores do Direito, os políticos, os intelectuais, os itabaianenses, mais numerosos ainda, todos, para estarem afetuosamente próximos do amigo e conterrâneo que assumia a presidência do Tribunal Regional da Justiça Federal em Pernambuco, o desembargador Vladimir de Souza Carvalho.

Só de governadores, viajaram o atual Belivaldo, e os ex, Jackson Barreto, e Albano Franco.

Vladimir, além de jurista, intelectual, um dos mais destacados romancistas do país, é também um homem que cultiva a arte nobre de fazer amigos.

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A FÁBRICA E O COCO

Em outubro do ano passado, comentamos aqui, o enorme desperdício e o grave problema ambiental, além das complicações logísticas da coleta do descarte dos cocos cada vez mais consumidos pela população. Há um saudável movimento de abandono do nada saudável refrigerante, e a substituição pelos produtos naturais, onde o coco ganha especial destaque.

Logo depois o diretor-presidente da EMSURB, advogado Luis Roberto Santana, mostrava um estudo completo que mandara fazer sobre o consumo do coco em Aracaju, com a revelação surpreendente de que a cada semana 200 toneladas de coco eram levadas dos diversos pontos da cidade, para o local do tratamento de lixo.

O engenheiro-agronômo Etélio Prado, hoje aposentado mas permanentemente voltado para o desenvolvimento de Sergipe, lembrou que existia na Bahia, no município aqui perto do Conde, uma fábrica que fazia o aproveitamento do coco, que já fora antes recolhido em Aracaju, mas que isso acabou pela oferta suficiente de cocos em Salvador, com uma distância quase igual.

Mas aqui um empresário já havia tomado providências, conseguiu financiamento, e a indústria, pequena ainda de aproveitamento do coco, está instalada nas proximidades do Mosqueiro. A Prefeitura que recolhia o coco principalmente na Atalaia, e o transportava para mais longe, agora, faz o descarte na fábrica, que o aproveita. Economiza combustível e apoia uma indústria que surge.

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Luiz Eduardo Costa
É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com


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