“O ANO QUE VEM EM JERUSALÉM”
Blogs e Colunas | Luiz Eduardo Costa 01/04/2019 13:58

“Vaiter yor in Irushlim”, “Vaiter yor in Irushlim”, (Ano que vem em Jerusalém), era assim que os israelenses começaram a trocar cumprimentos, desde que, no século dezenove Theodor Herzel, um jornalista nascido no império austro-húngaro, e judeu, começou a propagar o sionismo, ideia agregadora de um povo disperso pelo mundo, que se mantinha vivo e altivo pela força da religião única que professava.

A essência do sionismo era a conquista de um Estado nacional, e o alvo era uma “Terra Santa” para tantas religiões, que a Bíblia em alguns trechos chama de “Terra de Israel “, berço de uma das tribos consanguíneas até, sendo, por isso, “primos” os judeus e árabes. Dessa terra os israelitas foram expulsos pelos romanos no século terceiro depois de Cristo.

Israelitas, ou judeus, já tinham a sua própria religião, singularmente monoteísta, enquanto os romanos, conquistadores, estavam convertidos ao cristianismo, isso, além de outros problemas de ordem comercial, principalmente, geraram as perseguições contra aquela parte dos ocupantes da Palestina. Os judeus eram industriosos, hábeis em lidar com a ourivesaria e o dinheiro, e os romanos os identificavam como agiotas e sonegadores de impostos.

A diáspora foi a grande e forçada viagem que os judeus fizeram através do mundo, num trajeto marcado por sofrimentos, que ficaram gravados com a intensidade terrível da degradação humana, na imagem dos campos de extermínio, que os alemães construíram, quando, doentes pelos sentimentos da ultradireita fanática e bárbara expressa no nazismo, cumpriam as ordens genocidas de Hitler: “riscar da terra uma raça indigna de nela viver”.

Finda a Segunda Guerra o mundo entendeu que era preciso dar uma terra ao povo em milenar diáspora, e quase exterminado na Alemanha, e nos países ocupados por Hitler.

A Palestina, parte do império otomano após a saída de Roma, era então um protetorado da Inglaterra, e para ela se foram deslocando milhares de judeus. Chegaram a mais de 500 mil os emigrados, que se somaram aos que antes lá viviam, convivendo harmoniosamente com os palestinos.

A ONU entendeu que a Palestina deveria abrigar dois Estados, um para os judeus, outro para os palestinos. Em 1948 surgia o Estado de Israel. Para isso, um diplomata brasileiro, Osvaldo Aranha, teve um papel destacado. Ele é muito reverenciado em Israel.
O Estado palestino nunca na prática se concretizou, mas, sobrevive dividido em duas áreas cercadas por Israel. A Faixa de Gaza, reduzida a uma desumana pocilga, e a Cisjordânia, da qual uma parte foi ocupada na guerra de 1967 por Israel, e agora, pedaço a pedaço vai sendo reduzida pelos assentamentos judaicos que avançam.

A ¨Cidade Sagrada de Jerusalém¨ berço de duas grandes religiões, o Islamismo e o Cristianismo, e de uma bem menor e exclusiva, o Judaísmo, é disputada tanto por Israel como pelo mundo árabe, este, defende nela a instalação da capital do Estado palestino. Israel ocupou a parte ocidental da cidade, onde ficam o Muro das Lamentações, sagrado para os judeus, e a Igreja do Santo Sepulcro, sagrada para os católicos. A Mesquita de Al- Acksa, segundo local mais sagrado para o islamismo, está no lado palestino, onde Israel frequentemente coloca suas tropas, e comete, para os muçulmanos, o supremo acinte de violar lugares sagrados.

Mas os palestinos resistem, já são representados na ONU, no Brasil criaram um escritório de representação em Brasília, e esse tratamento respeitoso que com eles temos, nos garante também o respeito do mundo árabe, onde ainda não se desfez a ideia, nada construtiva, de exterminar o Estado de Israel, uma tarefa impossível, porque Israel é potência militar, e tem armazenados, pelo menos uns vinte artefatos nucleares, com vetores capazes de os lançar sobre qualquer uma das capitais dos Estados árabes, ou do Iran, inimigo mais agressivo, e que não é árabe.

O Brasil faz excelentes negócios com os árabes e com o Iran, hoje, a maior potência da região, e mercado atrativo para os nossos produtos. Quando as ações da Lava Jato ainda não haviam destruído as nossas principais empresas de construção, elas operavam com destaque naqueles países, e para muitos deles, principalmente a Arábia Saudita, o Brasil vende armas e munições.

Quando o ex-presidente Lula visitou Israel, e por sinal foi muito bem acolhido, teve o cuidado de ir também visitar a Faixa de Gaza, e conversar com lideranças palestinas.

Ninguém deseja que o Brasil seja adversário de Israel, muito pelo contrário, temos laços fortes de solidariedade com o povo judeu, que inclusive remontam ao notável trabalho diplomático que desenvolvemos para que Israel existisse, mas, temos também, desde aquele tempo, um compromisso em assegurar a vida, a liberdade e a autonomia do Estado Palestino. A situação no Oriente Médio é a mais complexa e confusa do mundo, ali, construir a paz será uma tarefa que caberá a diversas gerações. É nessa tarefa que teremos de nos envolver.

Essas atitudes do governo Bolsonaro, inclusive a visita de Estado que ele faz a Jerusalém, colidem, frontalmente, com as posições oficiais brasileiras, não reconhecendo a soberania de Israel sobre Jerusalém ocidental. Pior será ainda a instalação de um escritório de negócios na cidade, a fórmula que teria sido encontrada para amenizar o absurdo da proposta de instalar a Embaixada Brasileira em Jerusalém. O escritório nada acrescenta, porque já existe, em Telavive, a Embaixada e um consulado que tratam muito bem das questões comerciais.

Cria-se, desnecessariamente um conflito, mais uma vez para que sejam atendidas as exigências de Olavo de Carvalho, e de alguns setores que se definem como evangélicos, e dedicam-se a fazer politica partidária e defesa de ideias absurdas.

O problema é que Bolsonaro não entende o mundo, na verdade ele até nem enxerga o Brasil, além da sua ótica radicalizada.

Vamos nos meter num conflito perigoso, vamos quebrar uma neutralidade que nos beneficiava, e nos dava dignidade, mantendo a tradição pacifista e harmonizadora do nosso país.

O que vamos dizer à comunidade árabe que aqui há tanto tempo vive, e em convivência normal com judeus, coisa rara no mundo? O que vamos dizer a centenas de milhares de brasileiros com sangue árabe aqui nascidos, o que vamos dizer ao mundo que se recusa a entrar no jogo perigoso de Netanyahu, que só interessa a ele mesmo, e aos propósitos truculentos de Donald Trump?

Estamos seguindo um caminho perigoso, desprezando a tradição diplomática brasileira, assumindo posturas guerreiras, para alimentar o conflito, e atender aos interesses alheios.

O voluntarismo de um homem e a atarantada babaquice de um Ministro das Relações Exteriores, pau-mandado do psicótico Olavo de Carvalho, militante de terceira classe da extrema direita americana, agressiva e inconsequente, irão nos causar sérios prejuízos.

O Mercado já se inquieta, os desempregados vão perdendo as esperanças, as falências se multiplicam, e em Israel vamos oferecer azeitonas e camarões para a empada eleitoral de Netanyahu, um corrupto que disputa uma eleição sabendo que, sem a imunidade de Primeiro Ministro, terminará na cadeia, para fazer companhia a um outro ex-primeiro ministro que lá já se encontra.

O Brasil está em paz, uma paz relativa, é verdade, porque internamente a insegurança é enorme, e a cifra de 60 mil assassinados é demonstração alarmante do quanto teremos de fazer para reduzir essa estatística de sangue.

E com todos esses problemas, ainda saímos pelo mundo catando problemas dos outros, para neles nos envolver.

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LEVA E TRAZ

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MINISTRA SEM RANÇO – Na passagem por Sergipe a Ministra da Agricultura e Pecuária deixou uma excelente impressão. A política e produtora rural Maria Tereza é livre do ranço que contamina uma parte considerável do governo Bolsonaro. Interessou-se em ver o sucesso do agronegócio na exposição do sensacional Parque das Palmeiras em Lagarto, e também foi ver de perto a agricultura familiar em Canindé do São Francisco e Poço Redondo. Ladeada pelos prefeitos Ednaldo e Junior Chagas, ela recusou-se a atender a um exaltado militante do PSL, que lhe desaconselhou a ir a um assentamento do MST. Foi, gostou do que viu lá sendo produzido, provou um bolo de mandioca e fez elogios. A Ministra deixou claro que apoia a todos os que se dedicam à produção no campo.

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AEROPORTOS E LEILÕES – No leilão dos aeroportos, nenhuma empresa brasileira conseguiu fazer um lance vencedor. Só a Odebrecht concorreu, mas, sua proposta ficou longe da vencedora.

Com relação ao Aeroporto de Aracaju, arrematado por uma empresa espanhola, que administra com pleno êxito o enorme aeroporto de Barajas, em Madrid, o que agora o governo do estado quer saber, é se haverá alguma compensação pelo que investiu em obras de infraestrutura, como o novo acesso, e também a demolição do morro da cabeceira oeste, que dificultava a ampliação da pista, já realizada.

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O ATHENEU – Há um livro, lançado faz algum tempo, e que merece ser lido por todos que se interessam pela evolução do processo educacional em Sergipe. A propósito de uma data comemorada, a professora e historiadora Josevanda Mendonça Franco produziu uma obra lapidar, exatamente sobre o Atheneu sergipense, um polo das transformações. Com uma precisa contextualização a professora Josevanda clarifica a época, as circunstancias, e a visão dos que, de certa forma se adiantaram ao seu tempo, o tempo de um Sergipe atrasadamente rural, com reminiscências escravistas, e um analfabetismo enorme, a parte mais feia do cenário de desleixo social.

O Atheneu é uma edição primorosa da EDISE, com apoio do Instituto BANESE, e a moldura da estética do arquiteto-poeta Ézio Déda. O prefácio é do ex-governador Jackson Barreto, em cujo governo o livro foi publicado.

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A PRAÇA E AS CONTAS – Ao inaugurar em Simão Dias a praça Lucila Macedo Déda, o governador Belivaldo resolveu fazer uma minuciosa prestação de contas do que até agora fez, e planeja fazer pelo município e a região. O que mais impressionou foi o volume de obras em execução, ou projetadas, para o esgotamento sanitário e abastecimento de água, com a interligação de duas adutoras, a do São Francisco e a do Piauitinga. Belivaldo agradeceu muito ao deputado Fábio Reis, que conseguiu viabilizar uma emenda de 80 milhões de reais. Já o Secretário da Casa Civil, José Carlos Felizola, fez um paralelo entre as ações do deputado Fábio Reis, que é de Lagarto, e os dois, pai e filho, senador e deputado, explicando que o lagartense levou muito mais benefícios ao município do que os seus dois filhos de Simão Dias, que passaram mais de meio século no poder. Não deu nomes, mas referia-se, evidentemente, aos ex, senador Valadares, e ao deputado federal Valadares Filho.

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A PONTE - A Ponte do Imperador, na realidade não é uma ponte, mais precisamente é um caís sobre o estuário do Sergipe, com alguma sofisticação. Local público com alguma frequência e a recorrente fala de que servira para o desembarque do Imperador Pedro II e sua numerosa comitiva, vindos a capital sergipana que estava em processo de instalação. Na verdade a ponte original era outra muito mais simples e construída às pressas para que o Império não afundasse os pés nas nossas lamas.

Então surgiu uma historiadora primorosa detalhista e atenta ao cenário da época e fez a história abrangente da Ponte comemorativa erguida décadas depois da visita imperial.

O livro está esgotado e a historiadora Ana Medina, se propõe a fazer uma reedição, e como nunca se contenta com o que faz e sempre quer mais fazer, ela fará acréscimos à obra original.

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Luiz Eduardo Costa
É jornalista, escritor e membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Maçônica de Letras e Ciências. Ambientalista, fundou o Instituto Vida Ativa que, dentre outras atividades, viabilizou em 18 anos o plantio de mais de um milhão de mudas da Caatinga e Mata Atlântica.

E-mail: lecjornalista@hotmail.com


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