PT terá candidato, cogita aliança com PSB e quer distância de Edvaldo
Blogs e Colunas | Joedson Telles 05/05/2019 07:16

Coordenador Geral do Movimento PT, uma tendência interna do Partido dos Trabalhadores, Silvio Santos solta o verbo e destrinça a polêmica frase, sobretudo vindo de um petista,"Edvaldo governa sob o ideário do liberalismo". Segundo ele, "a privatização/terceirização na saúde é o principal exemplo de seu flerte com as políticas neoliberais". Dando a entender que o rompimento da aliança é irreversível, Silvio Santos afirma que o PT está determinado a ter candidatura própria a prefeito de Aracaju, em 2020. "Esse é o sentimento das nossas lideranças e das nossas bases", assegura o histórico militante, sublinhando a necessidade de estar longe do palanque de Edvaldo. "Estamos falando de um projeto político para Aracaju que contemple o nosso povo, a nossa sociedade. Não se trata da manutenção de um grupo de amigos." Disposto a fortalecer o projeto, o PT já conversa informalmente com outras legendas, e não descarta uma reaproximação do PSB. "Salvo alguns hiatos muito breves, é um partido que tem sido nosso aliado histórico. Estivemos juntos muitos anos governando o Brasil, o estado de Sergipe e a nossa Aracaju. Aliás, em 2018, a maioria do PSB no Brasil apoiou o nosso candidato Fernando Haddad para a presidência da República. Reeditarmos nossa aliança com o PSB seria retomarmos uma caminhada juntos", diz.

"Edvaldo governa sob o ideário do liberalismo". Como destrinçar esta sua frase?

Edvaldo foi eleito prefeito por um bloco de partidos progressistas identificados por um programa democrático popular. Partidos que se mantiveram unificados inclusive nos enfrentamentos da política no cenário nacional. A principal base desse bloco era formada por PT, PC do B, PSD e o PMDB (hoje MDB), liderado pelo então governador Jackson Barreto, que, inclusive, resistiram ao golpe parlamentar que vitimou a presidente Dilma. O programa avançava em alguns pontos, mas a matriz ideológica era a mesma que serviu de referência para o mandato anterior do próprio Edvaldo. Foi a confiança de que Edvaldo se manteria compromissado com o diálogo social na construção das políticas públicas, com a democracia participativa, o respeito às entidades representativas dos servidores públicos municipais, entre outras pontos que nos levaram a, primeiramente, defender sua candidatura e depois apoiarmos sua eleição.  Aqui abro um parêntese para acrescentar que sem o apoio de primeira hora do PT, Edvaldo sequer viabilizaria sua candidatura porque o bloco todo já estava comprometido e dividido entre as pré candidaturas de Valadares Filho e Zezinho Sobral. Vamos lembrar que Fábio Mitidieri, liderança maior do PSD, já havia declarado apoio à candidatura de Valadares Filho, enquanto Jackson Barreto, governador do Estado e líder do bloco, patrocinava a candidatura de Zezinho Sobral. Foi o PT quem primeiro declarou apoio a Edvaldo, e ao fazê-lo, além de torná-lo um candidato viável, fez com que aquelas lideranças fizessem uma inflexão e mudassem de posição vindo também apoiá-lo. O PT indicou Eliane Aquino, um de seus principais quadros para compor a chapa, garantindo a famosa e brava militância petista e o apoio popular que definiu sua eleição. Pois bem, para nossa surpresa, uma vez eleito, Edvaldo abandona o programa que nos mobilizou e adota na prática um discurso e uma ação totalmente diversa. No primeiro momento, apesar da perplexidade, entendíamos que era em função da crise econômica e pela situação caótica em que a prefeitura se encontrava, depois da gestão desastrosa de João Alves. Depois de algum tempo percebemos que não era somente isso. Edvaldo, infelizmente, fez uma opção por implementar um programa de governo diferente daquele que pactuamos e que combatemos ao longo de nossa história. A privatização/terceirização na saúde é o principal exemplo de seu flerte com as políticas neoliberais. Nós defendemos no programa de governo uma nova política de mobilidade urbana tão reivindicada pela nossa sociedade e até agora o que se fala sobre o tema é o recapeamento da Rua da Frente e a troca de semáforos. São ações que não chegam nem perto dos problemas de mobilidade que temos. Nossas ciclovias, que na gestão anterior do próprio Edvaldo foram exemplo nacional, hoje, estão completamente abandonadas sem o mínimo de manutenção. O programa de 2016 trazia a proposta inovadora da chamada cidade inteligente. Aliás, volta e meia, o prefeito faz uma live falando do tema. Mas cadê o Plano Diretor? Podemos falar em Cidade Inteligente sem um plano diretor que modernize a nossa cidade e a coloque no patamar das cidades que oferecem boa qualidade de vida? Não. Porque não se fala em Plano Diretor na atual administração? Sem o Plano Diretor o Cidade Inteligente não passa de propaganda enganosa.

Quais as principais mudanças de comportamento do Edvaldo que Silvio Santos foi vice-prefeito para o Edvaldo de hoje?

O Edvaldo de hoje é completamente diferente daquele da gestão anterior. Posso assegurar que o governo de Edvaldo, entre 2008 e 2012, foi um dos governos mais exitosos que Aracaju já viu em toda a sua história. Em todas as áreas ele deixou legado e exemplo. Além de um declarado e comprovado compromisso com a cidade e com a população mais pobre, aqueles que mais precisam de governo. Foi aquele Edvaldo que nos trouxe de novo para apoiá-lo. 

Veja o compromisso que Edvaldo tinha com os trabalhadores usuários do transporte público na gestão anterior. Aumento zero ou no máximo a tarifa era reajustada pelo índice da inflação. Hoje? O maior aumento da história. Na outra gestão nós também vivemos crises na saúde, mas veja que Edvaldo superou os piores momentos sem nunca cogitar terceirizações ou privatizações. Olha o que acontece hoje. Estas são as nossas frustrações e o nosso desapontamento com a gestão atual.

Edvaldo herdou inúmeros problemas do ex-prefeito João Alves Filho. Qual o peso disso nas críticas que ele recebe hoje?

Nós temos total consciência do quadro caótico da prefeitura que Edvaldo recebeu. Nós não criticamos a falta de investimentos nesse ou naquele setor com os recursos do tesouro, pois sabemos que pagar os servidores em dia já é um esforço que merece elogios. Nós reclamamos é do modelo de gestão. Reclamamos da opção feita por um programa que vai de encontro ao que os nossos partidos, aí incluído o próprio PC do B, defendem. Quer um exemplo? Você acha que o governador Flavio Dino, do PCdoB do Maranhão, recebeu uma boa herança dos Sarney? Claro que não. Mas olhem o governo que Dino faz lá. Olha onde está o compromisso dele. Olha o posicionamento político dele. Compare com o de Edvaldo e me diga se os dois são do mesmo partido e ou defendem as mesmas ideias.

O sentimento de aliados, como o PSD e o MDB, hoje, é pela manutenção da aliança com Edvaldo. Como o PT pode mudar isso e atrair apoio para uma suposta candidatura própria à Prefeitura de Aracaju?

Em primeiro lugar é preciso dizer que o PT sempre demonstrou compromisso com a manutenção da unidade desse bloco político. Nenhum partido dessa coalizão tem tantos exemplos desse compromisso quanto o PT. Aliás, ouso dizer que nenhuma força política na história de Sergipe foi tão altruísta e dividiu tanto espaço de poder com os aliados do que o PT. O PT abriu mão de ter o vice de Déda, em 2004, e vamos lembrar que aquela vice valia um prefeito. Abriu mão de ter candidato próprio na capital, em 2008, e olha que ali o PT estava no auge de sua força política no estado e no Brasil. A mesma coisa em 2012 (com algumas nuances que a história um dia revelará). Em 2016, o PT tinha em Eliane Aquino um quadro em melhores condições de ganhar as eleições para a prefeitura do que o próprio Edvaldo e o PT abriu mão e ainda a indicou para ajudar Edvaldo a ganhar as eleições. Por tudo isso, nós ouvimos determinadas cobranças, respeitamos as opiniões, mas não encontramos coerência nem legitimidade nelas. Entendemos como uma infantil luta política, infelizmente, tão comum nesses momentos de definições. Ademais, nós entendemos a importância da unidade de um bloco político quando isso diz respeito a fortalecer um projeto e um programa que contemple as ideias que defendemos. Quando essas ideias são compartilhadas por todos do bloco. Quando não, não há o menor sentido. Afinal nós estamos falando de um projeto político para Aracaju que contemple o nosso povo, a nossa sociedade. Não se trata da manutenção de um grupo de amigos. Não somos uma confraria. Por mais amigo que seja nós não temos nenhuma razão para apoiar uma candidatura que defenda um programa de governo antagônico as causas que defendemos. 

O PT está disposto a sair de qualquer jeito, mesmo que seja à base do chamado "puro sangue"?

Eu diria que o PT, por tudo que está dito nas respostas anteriores, está determinado a ter candidatura própria. Esse é o sentimento das nossas lideranças e das nossas bases. É claro que nós vamos conversar com outros partidos. Vamos procurar construir com outras forças políticas e apresentar para os aracajuanos uma alternativa que restabeleça um governo democrático popular para nossa cidade.

O nome seria Márcio Macedo?

O PT tem vários quadros em condições de liderar esse projeto para a nossa capital. Márcio Macêdo é um desses bons quadros que temos e que está apto para essa tarefa.

Alguma legenda aliada, hoje, do prefeito Edvaldo Nogueira sinaliza positivamente para fazer uma aliança o PT? Há outras legendas insatisfeitas com Edvaldo?

As conversas com outras legendas ainda são incipientes e informais. Mas são conversas alvissareiras. Temos tido boa receptividade tanto com legendas do bloco quanto com forças que já não estão mais no bloco. O PT tem o reconhecimento e o respeito por parte das demais forças políticas no estado. Quanto a insatisfação com o governo municipal posso garantir que não somos os únicos.

Edvaldo observou, esta semana, ao ser entrevistado na Fan FM, que Valadares Filho deixou o bloco e perdeu a eleição. Como Silvio Santos avalia esta colocação?

Chega a ser comovente a preocupação tardia do prefeito com o PT. Aliás, você já percebeu que de repente todo mundo ficou preocupado com o destino do PT em 2020? Realmente Valadares rompeu com o bloco e perdeu a eleição em 2016 para Edvaldo em segundo turno com uma votação de 47,89%. Só que o prefeito esquece que, em 2012, Valadares Filho foi o candidato de Edvaldo e apoiado pelo bloco e teve apenas 37,62%, perdendo a eleição para João Alves no primeiro turno. O prefeito Edvaldo, pelo tempo de estrada que tem, deveria saber que cada eleição é uma eleição

O PT descarta buscar um entendimento com o PSB dos Valadares?

Eu particularmente sou reconhecido no PT como um aliancista convicto. Não tenho medo de aliança porque quem tem convicção de onde quer chegar não pode ter medo das companhias. O balizador da aliança é o programa. Não podemos é rebaixar ou inflexionar o programa. Se tem concordância com o programa temos um caminho inteiro para andarmos juntos. Sobre o PSB, salvo alguns hiatos muito breves, é um partido que tem sido nosso aliado histórico. Estivemos juntos muitos anos governando o Brasil, o estado de Sergipe e a nossa Aracaju. Aliás, em 2018 a maioria do PSB no Brasil apoiou o nosso candidato Fernando Haddad para a presidência da República. Reeditarmos nossa aliança com o PSB seria retomarmos uma caminhada juntos.

Insistir numa candidatura própria, mesmo correndo o risco de se isolar, mais prejudica ou ajuda o projeto do partido para 2022?

Como dizia Guimarães Rosa "...o que a vida quer da gente é coragem". Política não é aritmética. Na política nem sempre 2 + 2 são 4. As vezes é -2. Nem sempre o candidato com mais partidos apoiando ganha a eleição. Temos vários exemplos de coligações amplas que perderam eleições. Um desses exemplos é a eleição para prefeito de Aracaju que elegeu Déda, em 2000. A candidatura dele, segundo os analistas da época representava o isolamento. Do outro lado tinha a candidatura de Valadares que tinha o apoio de Jackson Barreto, Albano Franco, João Alves e algumas dezenas de lideranças menores. Déda ganhou no primeiro turno. Em 2016, quando Edvaldo se lançou candidato estava sozinho e tinha a época dois aliados, Valadares Filho e Zezinho Sobral, com alianças amplas já posicionadas. Mas Edvaldo soube construir uma aliança forte que o levou de volta a prefeitura. Temos dois exemplos aqui do que pode acontecer conosco. Sairmos sozinhos ou construirmos uma aliança mais ampla e, em qualquer das duas situações, sairmos vitoriosos. 

A propósito, uma candidatura própria do PT ao Governo do Estado é mesmo irreversível? O partido só discutiria se o nome seria Rogério, Eliane ou outro?

Todos os partidos políticos que têm força real, densidade eleitoral e representatividade política assume protagonismo em todas as eleições. É natural. O PT como outros partidos também pensa em 2022, mas não há 22 sem 20. Não será permitido ao PT dizer "eu pingo" em 2020 em função de 2022. Todos os partidos vão buscar acumular força nas eleições municipais para as eleições estadual. Na política na há nada de definitivo. As estratégias podem até mudar no decorrer do processo, mas o PT com a representatividade na sociedade que tem e com quadros do quilate de Eliane Aquino e Rogério Carvalho é claro que estará no páreo para a sucessão de 2022.

Lula foi consultado sobre o futuro do PT em Sergipe? É entusiasta das candidaturas, em 2020 e 2022?

O Lula tem conversado com o Márcio, recentemente conversou com Rogério e é claro que ele está informado do que estamos construindo aqui. O Lula é um político extraordinário, com sensibilidade e inteligência especiais. Certamente tem contribuído com sua opinião aos interlocutores, mas tenho certeza que ele torce pelo fortalecimento do partido aqui no estado.
 
 

 

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Joedson Telles
Joedson Telles é um jornalista sergipano formado pela Universidade Federal de Sergipe e especializado em política. Exerceu a função de repórter nos jornais Cinform, Correio de Sergipe e Jornal da Cidade. Fundou e edita, há nove anos, o site Universo
Político e é colunista político do site F5 News.

E-mail: joedsontelles@gmail.com


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