Iran afirma que professor Dudu não participou de sua campanha 
Blogs e Colunas | Joedson Telles 08/07/2019 09:43 - Atualizado em 08/07/2019 10:15

"Minha campanha teve uma coordenação, teve ato político de lançamento, teve reuniões internas de planejamento, teve panfletagens, caminhadas, teve contribuições financeiras, teve declarações públicas de apoio e teve o ato comemorativo da bonita vitória. O professor Dudu não esteve em nenhuma dessas atividades. A pergunta que cabe fazer, então, é: como alguém que não esteve nas atividades de campanha pode ter sido usado por ter participado dela?", indaga o deputado estadual Iran Barbosa (PT), ao comentar uma entrevista concedida pelo presidente da CUT/SE, Rubens Marques, o professor Dudu, na qual afirma que se sentiu usado pelo então candidato a deputado Iran. Ainda nesta entrevista, Iran reprova o governo Jair Bolsonaro, diz que o PT precisa ter candidato próprio à Prefeitura e Aracaju e avalia que, mesmo ocupando cargos comissionados nas gestões Edvaldo Nogueira e Belivaldo Chagas, o PT tem que criticar os governos.  

Como avalia o exercício do mandato de deputado estadual, neste primeiro semestre? O que já foi possível colocar em prática?

Eu avalio como um semestre de trabalho desafiador, muito intenso e muito produtivo. Foi um semestre de início do meu primeiro mandato na Assembleia Legislativa, o que implicou nos desafios iniciais de compor assessoria, planejar e definir princípios, métodos, objetivos, metas e organização interna para o nosso mandato parlamentar. Apresentamos um grande conjunto de 118 proposituras (49 Requerimentos, 37 Indicações, 5 Projetos de Lei, 2 Moções, 2 Propostas de Emenda à Constituição e 23 Projetos de Emenda à LDO de 2019), dialogando com os movimentos sociais, com o movimento sindical, com entidades da sociedade civil e com lideranças e pessoas do povo. Ocupei, de forma intensa, a tribuna do Parlamento para tratar de assuntos relevantes para a população. Promovi, dentro da Assembleia Legislativa, importantes debates e discussões, através de Audiências Públicas com temas como a defesa da Fafen; os 55 Anos do Golpe Militar; a Reforma da Previdência; o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil; a Escola Bilíngue de Surdos; a Luta Antimanicomial; e o Combate ao Trabalho Infantil. Promovi palestras durante Grandes Expedientes das Sessões da Casa, sobre a Conjuntura Política das Bibliotecas Escolares e as Perspectivas da Documentação Escolar; sobre a Marcha das Margaridas 2019; e sobre a importância da engenharia, agronomia e geociências no desenvolvimento nacional. Além disso, foi por minha iniciativa que ocorreu a Sessão Especial em comemoração ao Centenário de nascimento do Bispo Dom José Brandão de Castro, com o lançamento de uma Exposição Itinerante sobre a vida do Bispo. Disputei e consegui ocupar importantes Comissões Temáticas do nosso Poder Legislativo: presido a Comissão de Ciência, Tecnologia e Informática e sou membro titular das Comissões de Educação, Cultura e Desporto e da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos. Também reativei importantes Frentes Parlamentares, como a Frente Parlamentar em Defesa do Meio Ambiente, com ênfase no combate à desertificação no Bioma Caatinga; a Frente Parlamentar da Segurança Alimentar e Nutricional; e a Frente Parlamentar da Sustentabilidade dos Povos e Comunidades Tradicionais do Estado de Sergipe. Promovi, participei e fui convidado a proferir diversos debates e palestras, por todo o Estado, em Câmaras Municipais, sindicatos e outras instituições, para enfocar temas da mais alta relevância, com amplo destaque para a Proposta de Emenda Constitucional que altera os direitos previdenciários dos trabalhadores e trabalhadoras. Participei de atos públicos, de ações de luta de sindicatos, de audiências e reuniões com autoridades, representantes de outros poderes e órgãos, tudo na busca da melhor e mais atuante forma de representação do povo sergipano.

Quais as expectativas para o segundo semestre? O que será prioridade?

A expectativa é de continuidade e ampliação do trabalho iniciado no primeiro semestre, mas daremos prioridade à apresentação de um conjunto de projetos cuja discussão iniciada com as entidades interessadas ainda não foi concluída. Continuaremos priorizando o fortalecimento das relações do nosso mandato com a luta geral para a preservação e ampliação dos direitos do povo e dos trabalhadores.

O senhor apresentou emendas ao Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias, LDO, enviado à Assembleia pelo Poder Executivo Estadual. Quais foram estas emendas?

Foram 23 emendas, das quais oito foram aprovadas; cinco foram negociadas e retiradas para que sejam reapresentadas como Indicações ao Poder Executivo; e 10 foram rejeitadas. Destacarei algumas, em especial, as que foram aprovadas. Foram três Emendas Modificativas: uma que visa estimular a promoção da participação popular no processo de discussão e elaboração do Orçamento de 2020, garantindo a realização de Audiências Públicas em todos os Territórios do Estado; outra que visa garantir a sustentabilidade local, visando o equilíbrio ambiental nas áreas de exploração agrícola; e uma terceira com vistas a dar mais transparência à peça Orçamentária. Também foram aprovadas cinco Emendas Aditivas que têm por objetivo promover o fortalecimento do Sistema Único de Assistência Social; o fortalecimento das políticas de proteção, promoção e garantia dos direitos humanos; fomentar políticas públicas voltadas à cultura e suas diversas linguagens; garantir o direito humano à alimentação adequada aos alunos matriculados na Educação Básica da Rede Estadual de Ensino; e estimular o aumento da oferta e disponibilidade de alimentos saudáveis à população. Mas lamento a rejeição de emendas que considerava importantes e que tratavam da garantia de aplicação de 26% das receitas tributárias do Estado em Educação, conforme determina o Plano Estadual de Educação; do controle do Legislativo sobre os contratos firmados em parcerias público-privadas e sobre ajustes do Executivo ao Plano Plurianual; da participação popular, no âmbito da Assembleia Legislativa, na discussão do Orçamento de 2020; da garantia do reajuste do valor do Piso Salarial Nacional do Magistério; da mudança nos cálculos que definem o limite prudencial do Estado em relação à Lei de Responsabilidade Fiscal; do acesso dos parlamentares aos sistemas de controle financeiro do Estado; e da garantia da revisão geral anual dos salários dos servidores públicos.

O presidente da CUT/SE, Rubens Marques, o professor Dudu, disse ao Universo que se sentiu "usado" pelo senhor por ter participado da sua campanha para deputado, em 2018, enquanto membro da Articulação de Esquerda, e, depois da eleição, o senhor ter deixado a corrente. Segundo ele, o desgaste na relação existia, há mais de dois anos, e, se soubesse que o senhor deixaria a Articulação de Esquerda, a corrente teria outro nome para a disputa, inclusive ele, Dudu, poderia ser o candidato. Como o senhor avalia isso?

Primeiramente, é preciso dizer que avaliar como os outros se sentem é uma tarefa difícil, pois cada um é que pode falar sobre aquilo que sente e todos temos que respeitar esse direito subjetivo de todas as pessoas. Mas, eu preciso dizer que consideraria um desrespeito ao professor Dudu e a mim mesmo essa acusação de “uso”. Seria um desrespeito ao presidente da CUT porque ele, além de ser uma pessoa muito inteligente, é também bastante experiente. Dizer que Dudu foi usado é uma agressão à sua capacidade de formulação política e à sua experiência de décadas na militância sindical e partidária. Uma pessoa com esse perfil não se deixa usar. Mas preciso dizer, também, que isso não encontra respaldo na minha história de vida pessoal. Eu não “uso” as pessoas nas minhas relações familiares, pessoais, afetivas, profissionais e muito menos nas relações políticas. Ao longo da minha história de vida, eu tenho estabelecido, com as pessoas que me cercam, relações de respeito, de companheirismo, de cordialidade; às vezes de disputa, de divergência, de enfrentamento; mas nunca de uso! As pessoas não devem ser usadas. Elas podem ser, numa relação de divergência, combatidas e derrotadas, mas, repito, nunca usadas. No caso específico da minha relação política com o professor Dudu, até aqui, ela tem sido uma relação de respeito. É o que tenho a dizer. O fato concreto em relação à minha saída da Articulação de Esquerda é que nem Dudu, nem eu, nem ninguém sabia disso antes ou durante a eleição, por uma razão muito simples: essa foi uma decisão tomada, não por mim apenas, mas por um grande grupo de antigos militantes da Articulação de Esquerda, bem depois da eleição; porque, embora divergências internas viessem ocorrendo há bastante tempo, a renúncia do coordenador estadual escolhido para mediar os conflitos entre os grupos divergentes, provocou a saída coletiva de quadros antigos da corrente petista. Essa não foi uma decisão fácil, mas foi necessária para o momento que nosso agrupamento político vive. Esperamos ser respeitados em nossas decisões por todos os companheiros e companheiras do nosso partido, o PT, e exigimos respeito e consideração à história que temos construído em defesa dos trabalhadores e do nosso povo. Neste momento, estamos dialogando com um conjunto de forças partidárias da esquerda do PT, com o objetivo de fortalecer o nosso partido naquilo que acreditamos. Há, ainda, um outro aspecto a ser esclarecido em relação ao discurso de o professor Dudu sentir-se “usado” por ter participado da minha campanha. Minha campanha teve uma coordenação, teve ato político de lançamento, teve reuniões internas de planejamento, teve panfletagens, caminhadas, teve contribuições financeiras, teve declarações públicas de apoio e teve o ato comemorativo da bonita vitória. O professor Dudu não esteve em nenhuma dessas atividades. A pergunta que cabe fazer, então, é: como alguém que não esteve nas atividades de campanha pode ter sido usado por ter participado dela? O companheiro Dudu pode até ter tido iniciativas pessoais de contribuição à minha campanha, mas eu não fiquei sabendo se e quando elas ocorreram. Não fui convidado a participar delas e nem fui consultado sobre elas. Se elas ocorreram, é claro que eu tenho que agradecer a sua realização, mas aí não há como me acusar de ter "usado" quem quer que seja nesse processo.

Este desgaste ao qual Dudu se refere era mesmo irreversível, e o rompimento o caminho inevitável?
Tanto foi que hoje estamos no mesmo partido, fazendo as lutas conjuntas que defendemos, mas em agrupamentos distintos dentro do PT.

O que o senhor espera do Partido dos Trabalhadores, nas eleições 2020, passa, necessariamente, por uma candidatura da legenda à Prefeitura de Aracaju? Por quê?

Eu digo que sim. Porque o PT é um partido com um importante legado construído em Aracaju e precisa apresentar aos eleitores aracajuanos uma plataforma eleitoral, um programa de governo e um projeto de cidade que retomem conquistas importantes do período em que Marcelo Déda esteve à frente da Administração Municipal e proponham avanços significativos àquela experiência exitosa. Não entendo a razão de algumas pessoas acharem natural que todos os partidos possam apresentar o desejo de ter candidato ao governo municipal e acharem estranho que o PT possa exercer esse mesmo direito. Isso é uma discriminação que só interessa aos adversários do PT. Nós, petistas, temos que enfrentar isso com a tranquilidade de quem tem uma capilaridade eleitoral considerável, uma militância extremamente ativa e um histórico de administração respeitável na nossa capital.

O PT, até dezembro de 2018, ocupava, com Eliane Aquino, o cargo de vice-prefeita de Aracaju, e, até hoje, há petistas em cargos comissionados na gestão Edvaldo Nogueira. Isso torna qualquer crítica do PT ao prefeito inlegível?

Acho que você quis dizer,talvez, inadmissível... Todos sabem que a minha resposta a essa pergunta é um sonoro não. Fui vereador de Aracaju, até janeiro deste ano, e usei, permanentemente, as minhas prerrogativas parlamentares de petista para sugerir, cobrar e criticar o prefeito Edvaldo Nogueira sempre que foi necessário. Não sou adepto desse tipo de compreensão política de que quando você ajuda a eleger um governante ou quando o seu partido faz parte de uma coligação que governa, o partido deva ser omisso e não possa fazer críticas quando o governo erra. Governo é diferente de partido. Sempre defendi e pratiquei que, mesmo quando o governante pertence a um partido (e esse não é o caso da relação Edvaldo Nogueira – PT), ainda assim a capacidade de crítica partidária deve ser preservada. Uma coligação que ajuda a eleger um governante é formada por partidos distintos e eu não defendo que deva fazer parte do acordo eleitoral a omissão, o silêncio e a conivência, quando a realidade exigir o exercício salutar da crítica. Entre o democrático direito à autonomia crítica e cargos em governos de plantão, eu sempre escolho a liberdade de falar criticamente quando for necessário.

Quanto ao Governo do Estado vale o mesmo juízo de valor?

Isso para mim é princípio e como tal vale para a relação entre os partidos e qualquer esfera de governo. Isso não é simples retórica, é prática constante na minha vida parlamentar. Fui  vereador em Aracaju quando o PT governava. Fui deputado federal quando o PT governou o Brasil. Em nenhum desses momentos abri mão de exercitar a crítica como instrumento de contribuição de sucesso para os governos que ajudei a eleger. Defendo, inclusive, que os partidos devam ser as “consciências críticas” dos governos ocupados por seus membros, advertindo-os de desvios, lembrando-os dos compromissos e exigindo respeito aos princípios e deliberações das siglas partidárias. Sem formulação crítica, nada disso prospera.

Qual a sua avaliação dos primeiros seis meses do governo Jair Bolsonaro?

Acompanho o que pensa a maioria dos brasileiros, e que está expresso através de diversas pesquisas. Estamos diante de uma tragédia política: vexames internacionais, retrocessos civilizatórios, incentivo ao ódio, discriminação às minorias, desmonte das políticas públicas, extinção de conquistas sociais e trabalhistas, pobreza intelectual, envolvimento em sucessivos escândalos, retrocesso econômico, desrespeito a importantes pactos internacionais na área ambiental e na área dos direitos humanos, desmonte da máquina pública, incentivo à violência, desrespeito às instituições, entrega das nossas riquezas ao capital internacional, aumento do desemprego... Uma tragédia!

A rejeição ao PT, sobretudo com os efeitos da Operação Lava Jato, teve peso decisivo para a eleição de Bolsonaro. O partido precisa refletir sobre isso e até admitir erros para reconquistar a maior fatia do eleitorado ou apenas fazer oposição ao Governo Federal é o bastante?

Eu tenho outra compreensão a respeito da eleição de Bolsonaro. Dizer que a rejeição ao PT teve peso decisivo para ela é desconsiderar que se Lula não tivesse sido preso nas condições vergonhosas que ficam cada vez mais evidentes, seria o PT que estaria governando o Brasil. É desconsiderar que, mesmo lançando um candidato às vésperas do pleito eleitoral, o PT conseguiu forçar a realização de um segundo turno, onde teve um respeitável desempenho. É desconsiderar que o processo de disputa eleitoral está envolvido por um escândalo de proporções robóticas, que agora será investigado através de uma CPI. É desconsiderar o pacto degradante entre a grande mídia e setores do Judiciário para influenciarem de forma parcial e partidarizada nas eleições presidenciais. Enfim, é uma afirmação muito simplista atribuir a vitória de Bolsonaro à rejeição ao PT. A realidade é muito mais complexa do que essa equação tão facilmente repetida. Por outro lado, é óbvio que o PT precisa refletir sobre os seus erros e procurar aprimorar sua intervenção na sociedade, fazendo uma dura e incansável oposição a esse governo trágico, mas buscando, sim, uma reaproximação ativa com as suas bases sociais. Essa reaproximação tem ao seu favor algo que alguns omitem quando supervalorizam as críticas ao PT. Refiro-me ao legado de governos que conseguiram enfrentar crises econômicas, gerando emprego, distribuindo renda, estimulando as políticas sociais, investindo na participação popular, ativando conselhos de direitos, reduzindo a fome e a pobreza, aumentando de forma considerável as oportunidades de acesso a universidades e institutos federais de educação, garantindo programas de habitação, saneamento, iluminação. Essas coisas que aproximaram o PT do nosso povo e que fizeram a elite brasileira ampliar o seu ódio pelo partido são o antídoto contra a propaganda antipetista e quanto mais o povo acompanha os desastres do atual governo, mais fica evidente a diferença de projetos.

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Joedson Telles
Joedson Telles é um jornalista sergipano formado pela Universidade Federal de Sergipe e especializado em política. Exerceu a função de repórter nos jornais Cinform, Correio de Sergipe e Jornal da Cidade. Fundou e edita, há nove anos, o site Universo
Político e é colunista político do site F5 News.

E-mail: joedsontelles@gmail.com


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