Sobre os muros na cidade
Blogs e Colunas | Clarisse de Almeida 27/09/2017 15:22 - Atualizado em 27/09/2017 18:40

Dia desses voltando da praia, lembrei-me de uma canção:

Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo à fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido
(Engenheiros do Hawaii – Muros e Grades),

Especialmente do verso que fala em fantasia, que é a ideia equivocada de que muros cada vez mais altos em nossas cidades podem proteger seus moradores de invasões e roubos.

Muito ao contrário, quanto mais fechados e altos, mais isolam os castelos individuais da vida coletiva que, na formação das cidades no período neolítico, era justamente a garantia de sua segurança. Como se não tivesse sido exatamente o que se pretendia obter ao se agruparem os homens.

Inúmeros são os relatos de assaltos a residências que, por motivo de viagem ou qualquer ausência de seus donos, ainda que por breve tempo, tornaram-se alvos fáceis e convenientes para que fossem saqueadas, sem que ninguém percebesse que seus muros acolhiam em seu interior, sem qualquer objeção, justo aqueles a quem deviam ter impedido a entrada.

Sim, protegidos pelos paredões cegos podem passar dias inteiros escolhendo o que lhes interessa roubar, na intimidade da família ausente, e até contratar transporte adequado para carregar seu furto, com toda tranquilidade de quem sabe que não será perturbado por nenhum vizinho enxerido, pois não há como ser visto. Saem de muda sem nenhuma testemunha. E que surpresa quando do retorno dos moradores lesados: - “Ué?! Não eram vocês se mudando?!”


Rua cega: cenário ideal para a violência!


Pois é... Isto sim é real. Não se conhecem mais os vizinhos e não nos importamos com o que possa estar acontecendo do outro lado da rua, na casa em frente. Não existem os olhos da rua! Construímos muralhas na esperança de que estaremos salvos da violência que cresce a cada dia, até o dia em que, depois de um bem sucedido pulo, o marginal, dentro de nosso lar, nos rende sem a possibilidade de qualquer intervenção solidária. Entendamos quão melhor seria se nossos vizinhos pudessem nos ver!


Evolução dos muros nas cidades brasileiras. Das cerquinhas às muralhas!


Nos países desenvolvidos, mesmo nas grandes cidades, bairros inteiros dispõem suas residências lado a lado sem muros. Pequenas cercas, sebes e arbustos garantindo a privacidade necessária são suficientes para promover a segurança tão desejada. Quem não se lembra do filme “Esqueceram de Mim”, em que, ao ser deixado só, no feriado de Natal, o personagem menino-herói é de certa forma salvo pela visibilidade de sua casa?

Jane Jacobs, uma grande pensadora das cidades, em seu livro – Morte e Vida de Grandes Cidades – defende a comunicação visual das casas com as calçadas como fundamental para manter vivas as relações de vizinhança e a consequente vigilância solidária.

Pequenos truques arquitetônicos podem expor com sabedoria o acesso principal de uma casa, sem prejuízo algum para seus moradores. Quem não perceberia uma tentativa de arrombamento, então? Usaria um pé de cabra à vista de qualquer passante, mesmo um ladrão decidido?


Cidades vivas! Atividades misturadas.


Fica bem claro o equivoco e a oposta atitude a ser tomada. Precisamos das calçadas visíveis e levemente monitoradas, ruas vivas com pedestres indo e vindo. Misturar atividades e horários nos bairros. A setorização funcional do Modernismo não deu certo! Shoppings Centers e Condomínios Fechados adoeceram nossas cidades! Mas isso é pauta para outro texto.

Por ora, como medida urgente, fica plantada a ideia: Já foi se apresentar ao seu vizinho?

Então vá!

 

 

 

 

 

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Clarisse de Almeida
Arquiteta e Urbanista pela FAUSS/RJ, especialista em Tecnologia Educacional pela UERJ e em Paisagismo pela UFLA/MG. Atua com ênfase em Desenho Urbano e Projetos de Edificação e Paisagismo. Leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIT. Possui trabalhos reconhecidos nacionalmente e tem sido palestrante em variados eventos. É membro da equipe da Ágora Arquitetos.
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