Do amor às árvores
Blogs e Colunas | Clarisse de Almeida 05/10/2017 17:41 - Atualizado em 05/10/2017 22:49

Hoje a EMSURB fez uma limpeza geral na minha rua. As senhorinhas vizinhas, livres por um dia de suas ferozes vassouras, festejaram! Enfim aqueles montes de folhas amarelas das amendoeiras, com os quais elas lutam incansavelmente, foram levados e agora podem contemplar a tão sonhada rua nua.

Bem verdade, uma delas me segredou, que o seu desejo era que fossem levadas aos pedaços, como que punidas, as causadoras de suas angústias: as próprias árvores!

Ah, queridas vizinhas, como são inocentes! Ainda não perceberam a grandeza das árvores. Entes da mais alta dignidade, prestam serviços permanentemente à humanidade. Vejamos alguns; sim alguns, pois impossível listar todos:

No ambiente reduzem a temperatura, umidificam e filtram o ar de impurezas, amenizam ruídos,  reduzem a ação dos ventos e da poeira sem impedir a circulação do ar por ela renovado. Oferecem morada aos pássaros, aos micos, borboletas, soldadinhos e outros bichinhos que nos lembram que somos também criaturas, aplacando nossa solidão.

Suas belas copas, de tantos formatos, colorem as cidades, suas praças, avenidas e parques; suas folhas de variados tamanhos, em tons dos cítricos aos mais profundos verdes, dançam estimuladas pela brisa ao som da música que conhecemos como farfalhar, e nessa dinâmica caduca a folhagem que cobre de vida as calçadas cinzas das cidades.

Com sorte perto de nós vive um Flamboyant com sua floração vermelha, ou laranja; quem sabe uma Acácia com seus cachos de delicadas flores amarelas; ou o Ipê branco, rosa ou amarelo também? E haja alma para absorver tanta graça e beleza.

Emocionalmente as magníficas árvores então ancestralmente conectadas ao homem. No início, abrigavam os cultos, a religiosidade, a magia. Símbolos divinos, prometem vida e proteção – pense no Baobá, milhares de litros d’água reservados em seu caule para os viajantes do deserto, ou nas Mangueiras, nas Jaqueiras, Cajueiros e outras frutíferas, alimento bastante para humanos e animais. Em seus troncos, cascas milagrosas, curando nos chás e unguentos estão à disposição de quem as conhece e respeita.

Falando ainda de corações, sob suas generosas sombras refrescantes os romances são eternizados, com direito a registro esculpido no tronco a canivete; e balanços de corda em seus ramos pendurados, desde tempos imemoriais embalam os moços sonhadores e as crianças pequenas empurradas pelos pais. Nascemos, vivemos e morremos sob o testemunho de velhas árvores que sobrevivem a nós, por gerações, mas inexplicavelmente alguns ainda não conseguem amá-las. 

Nossa capital tem um triste índice de áreas verdes por habitante, é fato, assunto para outro texto, mas com certeza relacionado também a esse pouco amor dedicado às arbóreas. Podemos e devemos mudar esse quadro. Os arquitetos, urbanistas, paisagistas precisam estar em permanente campanha de arborização. Usar belas espécies regionais em seus projetos - o Mulungu, a Canafistula, a Craibeira, entre outras -, todas floridas, todas sombreadoras. Importante item, a sombra. Como falar de mobilidade urbana se não há conforto térmico para caminhar-se? O pedestre precisa de sombras!

Bem, e quanto aos cidadãos não tão especialistas? Como contribuir?

Poxa! Que bom que perguntaram!

Ok, começando a ver as árvores como parceiras, amigas, quase família. Não corte e não permita cortar por motivos torpes. Folhas não sujam calçadas, ao contrário, as embelezam. A poesia está nos olhos de quem vê. Plante mudas sempre que puder, observe características da espécie e mãos à obra! Vixe, mas vai demorar anos… Vai! Com sorte desfrutaremos, ou se não, deixamos uma vida melhor para as próximas gerações. Podem ser nossos filhos.

 

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Clarisse de Almeida
Arquiteta e Urbanista pela FAUSS/RJ, especialista em Tecnologia Educacional pela UERJ e em Paisagismo pela UFLA/MG. Atua com ênfase em Desenho Urbano e Projetos de Edificação e Paisagismo. Leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIT. Possui trabalhos reconhecidos nacionalmente e tem sido palestrante em variados eventos. É membro da equipe da Ágora Arquitetos.

E-mail: arqclarissedealmeida@gmail.com


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