Arquitetura para quem?
Blogs e Colunas | Clarisse de Almeida 18/10/2017 00:48 - Atualizado em 18/10/2017 11:10

Domingo chegou ao fim mais uma Mostra de Arquitetura de Interiores, Decoração e Design em Aracaju. Badaladíssima, trouxe o que há de melhor e mais contemporâneo neste mercado. Sem dúvida excelentes ambientes, assinados por competentes profissionais de várias gerações, apresentaram móveis, objetos, luminárias e revestimentos, entre outros itens capazes de fazer sonhar qualquer mortal. Mas quantos de nós podemos mesmo consumir aquelas maravilhas?

Como nos desfiles de alta costura, dessas mostras derivam tendências que vão sendo simplificadas até se manifestarem em um ou outro detalhe na produção popular de mobiliário e acessórios para decoração. Ainda assim, poucos têm acesso a estes. 

 

              Ambiente da CASA COR São Paulo 2017. Fonte: Google Images

Todo esse glamour, embora promova os arquitetos como artistas de refinado gosto, e permita que alguns se transformem em celebridades, como Sig Bergamin, Marcelo Rosenbaum, Brunete Fraccaroli, nacionalmente conhecidos, inadvertidamente contribui para o distanciamento brutal entre a massa consumidora de espaços e os profissionais da arquitetura. Não raro encontramos quem diga que arquitetos só trabalham para ricos. Essa inverdade se dissemina de diversas maneiras e todos perdem: os profissionais, formados às centenas todos os anos, e os milhares de potenciais clientes que precisam de arquitetura e não acreditam que têm direito a ela. 

Hoje, em função dessa equivocada glamourização, dezenas de jovens ingressam nas faculdades acreditando que, ao se formar, automaticamente garantem seu passaporte para a classe AA. Não só acreditam que enriquecerão logo, como também que se notabilizarão trabalhando para clientes abastados. Ledo engano.

Nos primeiros anos de formado descobrem que, a menos que pertençam à classe AA, tenham um talento extraordinário, ou sejam atingidos por um golpe de sorte, uma longa caminhada servindo a diversos clientes, incluindo alguns menos favorecidos e atuando em serviços de todos os tamanhos, vai ser necessária até, talvez, alcançar as sonhadas fama e estabilidade.

Mesmo atravessando os cinco anos intensos, trabalhosos e apaixonantes do curso, muitos récem-formados não entendem a grandeza e responsabilidade de ser arquiteto. Como já escrevi aqui antes a respeito do papel do arquiteto, inclui-se todo o fazer do e para espaço, nas suas atribuições. Olhando para o mundo em que vivemos, onde apenas 1% da população pode consumir a arquitetura da moda, fica clara a missão deste profissional, presente nos juramentos feitos em suas diplomações, como este:

“Juro que, no cumprimento do meu dever de arquiteto urbanista, empregarei a ciência com dignidade, dinamismo e respeito, participando com amor e empenho nas grandes e pequenas obras, não me deixando cegar pelo brilho excessivo da tecnologia, nem me esquecendo de que a opção de trabalho se fará a partir da visão de justiça e ética que em mim se fizer presente. Defenderei a natureza, procurando projetar ou construir com critério e segurança, evitando a destruição da plenitude do equilíbrio ecológico. Colocarei então meu conhecimento científico voltado para o desenvolvimento e bem-estar da humanidade. Assim sendo, estarei em paz comigo e com Deus.”

ou mesmo neste mais simples:

“Prometo exercer a profissão de arquiteto e urbanista inspirado no sentimento de patriotismo, nos principios da honra e da ética, contribuindo para o interesse público e desenvolvimento social.

Assim o prometo.”

Ou seja, nossa missão inclui e seja isto nossa salvação, atender a todas as classes sociais, sendo o nosso maior e mais promissor mercado aquele que atende à classe aspirante - a média, conhecida como classe C. Menos exigente, portanto, permitindo trabalhos simultâneos, viabiliza ganhos para ambos os lados. Ganha o cliente, que passa a ter acesso a soluções criativas e funcionais para seus problemas espaciais, ganha o profissional que tem a possibilidade de atuar colocando em prática o seu conhecimento e, não menos importante, sendo remunerado.  

 

                                                    Casa Vila Matilde do escritório Terra e Tuma: Arquitetura simples, acessível e elegante.  Fonte: Google Images

Algumas atitudes devem ser imediatamente tomadas visando a aproximação desse público ao trabalho do arquiteto: 

  • Enxergar o potencial de consumo de arquitetura existente nas classes menos abastadas. TODOS constroem.
  • Aprender a usar materiais mais acessíveis, mais baratos, e ainda assim tornar tudo lindo e funcional. Muito fácil ficar tudo lindo usando materiais chiquérrimos. A arte é fazer mais com menos. 
  • Acatar os desejos, por mais simples que possam parecer, valorizando o “salto” do outro, que até ontem não acreditava ter direito ao nosso “ouvir”.

Inúmeras outras poderiam ser listadas, porém por hoje fecho com a seguinte:

- Ter prazer, muito mesmo, com o fim daquela “obrinha”, que usando acabamentos da loja de materiais de construção da esquina do bairro realizou o sonho e trouxe alegria para vida de alguém. 

 

                                                       Casa Alagoas do escritório Tavares Duayer Arquitetura: Mais com menos. Fonte: ArchDaily

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Clarisse de Almeida
Arquiteta e Urbanista pela FAUSS/RJ, especialista em Tecnologia Educacional pela UERJ e em Paisagismo pela UFLA/MG. Atua com ênfase em Desenho Urbano e Projetos de Edificação e Paisagismo. Leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIT. Possui trabalhos reconhecidos nacionalmente e tem sido palestrante em variados eventos. É membro da equipe da Ágora Arquitetos.

E-mail: arqclarissedealmeida@gmail.com


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